Perda de expressão
Estamos próximos do centenário de nascimento de Bento Munhoz da Rocha Neto e muitas iniciativas irão celebrar o acontecimento como a inauguração de um memorial do estadista no Centro Cívico e o livro-ensaio de Vanderlei Rebelo entre outros eventos.
Vivemos em larga distância hoje de paradigmas como os representados por Munhoz da Rocha e Ney Braga, que foi por ele lançado na política, ou ainda de figuras como Pedro Viriato Parigot de Souza, o mais autêntico dos criadores da Copel. Citarei um exemplo, despojado de qualquer intento de ''idealização'' do passado, a que setentões como eu se sujeitam no fluxo do tempo: o pleito para o Senado em 1962 na primeira experiência, e esta no governo democrático de João Goulart, de campanha eleitoral com acesso gratuito ao rádio e à tevê.
Só olhando os nomes dos candidatos dá para perceber que não haveria um só dos hoje lembrados capaz de alinhar-se e ser comparado com os concorrentes: Amauri de Oliveira e Silva, Adolpho de Oliveira Franco, o primeiro do PTB e o segundo da UDN, eleitos e mais os ex-governadores Munhoz da Rocha e Moisés Lupion e ainda o ex-líder da maioria de Getúlio Vargas, Sebastião Viera Lins.
Amauri, não fosse o golpe de 64, seria o governador em 1965, embora devesse enfrentar em convenção o seu correligionário Léo de Almeida Neves. Basta citar esses nomes para constatar que o quadro de hoje é paupérrimo. Adolpho exerceu posto de direção no Banco do Brasil e foi governador de transição por causa da ida de Munhoz da Rocha ao Ministério da Agricultura.

Importação
O Paraná, a despeito da qualidade dos seus quadros, andou ''importando'' figuras nacionais em 1958 como se deu com Jânio Quadros que concorreu a deputado federal pelo PTB, manobra comandada por Souza Naves, que também se elegeria governador em 1960 não fosse a sua morte, e Plínio Salgado, chefe integralista. Jânio fez 78.810 votos saiu em primeiro e em segundo Ney Braga, pelo PDC, com 57.099 votos, seguindo-se Accioly Filho com 56.392 e Plínio com 50.628. Este acumulou energia da eleição presidencial de 1955 quando saiu em primeiro lugar em Curitiba e Ponta Grossa.
Há, por exemplo, nos quadros de hoje, um talento como o de Accioly Filho, um dos maiores parlamentares federais que já tivemos? O importante nesse pleito com adventícios é justamente o desempenho de Ney e de Accioly. Tanto Jânio quanto Plínio Salgado eram expressões nacionais, tanto que dois anos depois o primeiro se elegeria presidente.

Esquerda
Nessa eleição de 62 ingressamos em massa no PSB e abrimos espaço para alguns do PCB, então interditado. Nossa equipe era de mestres universitários como o geneticista Newton Freire-Maia, de Amílcar Gigante, discípulo de Lisandro dos Santos Lima na clínica médica, Vieira Neto, catedrático de Direito Penal.
O preconceito contra nós era muito forte e irrigado pela Guerra Fria. De todos o que fez votos foi Vieira Lins para senador com 63.252 sufrágios e para federal e estadual conseguimos 9.962 votos, insuficientes para uma vaga.
A força de Ney estava expressa na dupla Amauri, de esquerda, Oliveira Franco, um liberal que fizeram juntos 710 mil votos para o Senado. Essa liderança se caracterizava também na vitória do engenheiro Ivo Arzua (PDC-UDN-PL) para a prefeitura da Capital com 51.511 votos contra 40.187 de Carlos Alberto Moro (do PTB) e 17.023 de Abílio Ribeiro (PSD) e que iria consolidar-se em 1965, já em pleno regime fardado, com a conquista do governo por Paulo Pimentel que venceu Munhoz da Rocha por estreita margem.
É um retrato na parede, em sépia. O que dói é a atualidade.

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