LUIZ GERALDO MAZZA
Tempo de garatuja
Em alguns outdoors no interior, o time dos pichadores de cartazes políticos entrou em ação. Num dos mais badalados anúncios do governo Requião com a frase bombástica ''Você nunca viu tanta obra assim'' acrescentaram a gaiatice: ''E nem vai ver!''.
O expediente, espirituoso e desmistificante, por incrível que pareça, era uma tradição do PMDB. Na eleição governamental de 1982, o neysmo, que estava no poder e tinha o melhor candidato, sob o ponto de vista gerencial, mas com o ônus do regime militar, não subestimava a oposição e tanto que uma de suas peças em outdoors tinha a frase dramática: ''Saul Raiz ou um salto no escuro''.
Os militantes do PMDB (eram muitos, pois ainda não haviam se transformado em donos de cargos em comissão ou de nomeação definitiva, o que vai tirando o tesão como o cigarro no atletismo sexual), que tinham originalidade e argúcia nas provocações ao adversário mexeram no cartaz, ao riscarem a expressão ''ou'', que ficou assim ''Saul Raiz, um salto no escuro''. Uns mais gaiatos pensaram em coisa pior, mas menos eficaz como ''um assalto no escuro''. E, é claro, preferiram a via mais simples e concisa, despojada de ofensa.
Detalhe curioso e aí entra a minha implicância pessoal contra os supostos ''gênios'' do marketing foi a sequência de peças televisivas que precedeu o saque e que dramatizavam pessoas se decepcionando no chuveiro com o desligar da energia. E depois chamam esse tipo de calhordice de criatividade. A luz que apagou foi a deles que tiveram que aguentar três governos seguidos do PMDB e só retornariam com Lerner que tentou leiloar a Copel no segundo mandato. Aí, sim, um salto no escuro.
Jefferson
O deputado Roberto Jefferson não estava tão bem no discurso que precedeu a sua cassação como no do início na denúncia do ''mensalão''. Aquele era o dia do caçador e anteontem foi o da caça.
Privilégio
No STF, ontem, questionava-se se o ''foro privilegiado'' prevaleceria depois que o beneficiário deixou o cargo. Essa decisão pode colocar todo o time do Lerner de novo sob julgamento sem o benefício. E também a de FHC.
Sanepar
A Assembléia fez o que Requião queria no caso do pacto acionário da Sanepar como já o fizera no dos transgênicos e do pedágio (até encampação acabou sendo aprovada). As ''leis'' foram detonadas na instância superior e há baixa crença na hipótese de o decreto legislativo ''colar'', pois a Dominó Holding recorre.
Esses assuntos estão de tal forma ''politizados'' que constrangem até mesmo parlamentares contrários a votar com a maioria. O ''Porto é nosso'' é um desses exemplos. Jogo de frase, já que o porto será nosso mesmo com a hipótese da intervenção, até porque não pode sair do local em que está.
ONGs na mira
Consequência do tumulto e prejuízos provocados pelo Consórcio Social da Juventude em Curitiba: o TCU, através de auditores, está sugerindo que se proíba repasses a ONGs. Várias delas estão envolvidas no caso que culminou ainda com a depredação da sede da UPE, União Paranaense de Estudantes. Já se sugeriu CPI para as ONGs. Infelizmente a proposta não prosperou.
Adeus, Montesquieu
Para muita gente da área jurídica foi indevida a intervenção do STF no caso dos deputados listados para cassação. Montesquieu, em ''O espírito das leis'', fixou o princípio tripartite dos poderes de Estado, de separação e harmonia. Aliás a nossa cultura autoritária, por via do Executivo, o derruba amiúde. Tal argumento, o da separação dos poderes, foi empregado pelo desembargador federal Thompson Flores na concessão de liminar na Rodovia das Cataratas.





