LUIZ GERALDO MAZZA
Sobremesa ideológica
Quando não havia sobremesa em casa, minha mãe, na ausência concreta da iguaria, usava a definição: ''a sobremesa é o derradeiro bom bocado''. Quer dizer: substituía o desejado por um conceito, um confeito verbal, com suas implicações semântico-filológicas bastante claras.
Com o passar do tempo e pela frequência com que vi tantas utopias atropeladas, captei o sentido mais profundo de uma definição, um axioma, um desejo acabar substituído por uma frase que supostamente o encarnaria. Assim é que se deve olhar o que o nosso governador, por exemplo, diz do mercado ao anatematizá-lo, colocando-o como a síntese óbvia da especulação, como se essa palavra contivesse o mal que é preciso erradicar e não a sua natureza essencial.
Assim também devem ser vistos, pelo menos até aqui, os ''novos caminhos'' da ideologia, aqueles pretensamente expostos no Fórum Social de Porto Alegre, uma feira livre de opções no atacado e no varejo com declarações simplificadas de fim do capitalismo e do consumo, tal qual Fukuyama se referiu, noutro pólo da utopia, sobre o fim da história, hoje caminhando para uma nova Guerra Fria em que o terrorismo substitui o horror ao comunismo.
Ainda agora o aiatolá do MST, Stédile, afirma que o governo Lula acabou e que isso se deu porque esqueceu do ''social''. Este é outro artifício verbal como já o tivemos na pregação da ''justiça social'', frase que enche a boca também dos políticos corruptos e que não é suficiente para enquadrá-los à esquerda, como os primários entendem. ''Social'' é tão abstrato como ''Fome Zero'', uma idéia-força de porte desmoralizada a curtíssimo prazo. Não esqueçamos que José Sarney fez do ''Tudo pelo social'' uma divisa de governo e que só serviu para despistar na velha tradição mimética brasileira.
Basismo em transe
A luta das ONGs afinal são tidas como tal para ocupar espaços políticos nos bairros nas associações e federações de moradores se radicaliza. O pessoal que perdeu a eleição da Femoclan, esta apoiada pela prefeitura, hostiliza e, com muita competência, a diretoria eleita. Conseguiu a denúncia no Ministério Público da tesoureira (Araci Leal de Jesus) de que foi podada por exigência do gabinete prefeitural para que no posto ficasse alguém de confiança do sistema. Junta-se a isso e contra o vereador Valdenir Dias a decisão do Sindimoc, dos trabalhadores em transporte coletivo, o rompimento do contrato entre aquela entidade e o escritório de advocacia do presidente da Femoclan.
Convenhamos: essas facções se merecem e ficam mais ridículas quando transformadas em linha auxiliar do governo como ocorria na gestão de Taniguchi, em que eram usadas para dissuadir movimentos estudantis (a bobeira do passe livre) no Centro Cívico. Esse ''terceiro setor'' engajado fere o fundamento da democracia de que os entes intermediários entre o Estado e a Cidadania devem ser independentes para não romper o equilíbrio das coisas.
Renilda renhida
Na tese de que é de prendas domésticas, Renilda Maria se saiu bem na CPI, mas deixou o primeiro-ministro Zé Dirceu numa pior como envolvido na operação da partilha de grana na base aliada.
Ponto facultativo
César Maia, prefeito do Rio e presidenciável, disse que vai declarar ponto facultativo no dia do depoimento de Zé Dirceu. Vingança de pipoqueiro por aquela intervenção no sistema de saúde municipal.
Folclore
Jaime Lerner sobre o seu arqui-adversário jornalista Cândido Gomes Chagas: ''trata-se do meu inimigo de estimação''. Resposta do Candinho é sutil: quando vê o irmão de Jaime, Júlio, de quem é amigo, saúda-o como ''Lerner bom''.
Reflexão
E se as CPIs pegarem 100 parlamentares e estes renunciarem para evitar a cassação o País ficará sem vergonha na cara e sem solução? Cem por cento.





