LUIZ GERALDO MAZZA
Hora da aventura
Diz-se, e com muita razão, que as crises podem ser deflagradoras de formas permanentes de esperança. Num estudo sobre religião e carisma, o teólogo Leonardo Boff faz uma incursão semântica entre crise e crisol como um momento de revisão e reconstrução como o cadinho que reprocessa os metais.
O problema brasileiro atual pode até, por um esforço de depuração, indicar uma direção consensual para a defesa da democracia e seu avanço, mas pode também sofrer recuos com o aventureirismo populista, como o representado no PMDB pelo Garotinho, que trabalha as bases do partido para que haja a eleição direta do candidato presidencial pela massa de filiados. E estaria trabalhando, com a devida antecedência, para atingir tal objetivo.
Mantido o ritmo atual dos desdobramentos das várias CPIs não há como prever cenários futuros, próximos ou distantes. Se, todavia, a extensão dos atores envolvidos em esquemas de ''mensalões'' for mantida, não vai ser fácil advinhar os que sobrarão, incólumes, do contágio.
Países que enfrentaram ações ditatoriais bem mais pesadas do que as que aqui ocorreram como na Argentina, Chile e Uruguai tiveram noção civilizatória nas próprias corporações para não envolver todos na violência das torturas e das execuções. Tanto que nesses países a Justiça julga os comandantes militares que se envolveram no processo ''sujo''. O temor que se tem, pelo menos em função do ritmo acelerado das revelações, é que haja um comprometimento massivo e que coloque em dúvida a moral dos que buscarem soluções negociadas em pacto nacional para colocar o país nos trilhos.
Estaremos num quadro pior do que o da ''anomia'' de que falava o sociólogo Durkein e que a estabelecia num cenário equivalente ao do suicídio. Este, tido por Jean Paul Sartre como o único e verdadeiro problema da filosofia, se dá também no plano das instituições quando se perde a perspectiva dos laços gregários, humanos ou institucionais, que mantêm a sociedade viva e com um mínimo de equilíbrio.
Execração
A despeito de toda a cantilena em cima da CLT e de um suposto clima civilizado nas relações de trabalho, cada vez mais nos defrontamos com fatos absurdos como os supostamente ocorridos na ALL em que trabalhadores, que não alcançaram metas de ''produtividade'' em entrega de garrafas, poupando-as da quebra, foram submetidos à execração, como burros, ou colocados até sob ''prisão''. A empresa denunciada alega que o assunto está sob exame do foro trabalhista e que a decisão condenatória é de primeiro grau.
Há mais de um caso listado, segundo reportagens da Band e CBN. Mesmo que isso seja contestado vale lembrar que se inclui em deformações clássicas como a das metas inviáveis impostas a gerentes de bancos e de outros setores e que os mantêm sob a ameaça da perda do emprego.
Assim, não é apenas o trabalho escravo, muito encontrado em reflorestamentos e produtoras de carvão, que deve preocupar. Lojas de departamentos costumam fazer ''revistas'' constrangedoras nas suas vendedoras sob o fundamento de que podem subtrair mercadorias. Um assédio moral e tanto.
Às vezes, dá a impressão de que no ''Samba do Crioulo Doido'' de Stanislaw Ponte Preta ele acertou encerrando com a frase maluca, mas no caso bastante verdadeira, ''e foi proclamada a escravidão!''
Folclore
Um crítico do PT fez a ironia: antes eles eram moralistas, agora moram em todas as listas de corrupção, mensalão, caixa dois. É um exagero, mas isso tem sentido pedagógico porque no tempo em que eram estilingue também se valiam do mesmo recurso de potencializar a mínima denúncia. Vide caixa dois de Cassio.





