Mito das barricadas
Durante crises, como a que o Brasil está vivendo, aflora sempre o mito das barricadas ou, como diziam os romanos, o ''provocatio ad populum'', referendo alternativo. Tivemos alguns ensaios nos desfiles em Goiás de figuras do MST e da UNE em suposta defesa do mandato de Lula quando começou a pintar o quadro de asfixia da corrupção.
Em 64, um dos erros dos que se diziam defensores da legalidade e das reformas foi o de desafiarem os adversários, que acreditavam minoritários, para o embate das ruas. O comício da Central do Brasil, que parecia o máximo, perdia de longe das marchas das rezadeiras: eram centenas de milhares de pessoas contra milhões em escala nacional, não importa se bolado pela CIA ou não.
Aqui também volta e meia se apela para esse tipo de emergência: há ainda quem acredite que a Copel não foi vendida porque o povão estava na rua quando o que aconteceu se fundou na rejeição do mercado abalado pela derrubada das torres e o ''apagão''. Para quem acredita nas próprias fantasias é nutriente poderoso. A lei que encampava o pedágio, tolice equivalente à da proibição dos produtos geneticamente modificados, apoiada em agito de rua e na estrada com a invasão das praças pelo MST e caminhoneiros engajados, foi um desses devaneios. Como é agora a tentativa de reagir ao decreto legislativo que devolve os portos à União na base de comícios e mobilizações.
Gustavo Fruet, nosso melhor deputado federal, é contra a devolução, mas não aceita o ingrediente-fantasma da privatização e quer a audiência pública no âmbito apropriado, o federal, para apurar quem tem razão e quem pretende, na verdade, esconder o que não deseja ver revelado. Esse tipo de racionalidade, a que busca justiça, é inaceitável para os emocionais.

Flash
O que as pessoas fazem para aparecer não está em gibi nenhum. Osmar Serraglio se queixa da bancada do ''flash'' com o deputado ou senador pedindo questão de ordem para faturar minutos de glória. O ''flash'' das histórias em quadrinhos e do cinema e vídeo era bem mais útil: a ligeireza extrema não para afanar, mas pegar, isso sim, os infratores da lei.

Salvos
Tirando os que foram expulsos (senadora Heloísa Helena, Luciana Genro) sobram muitos para salvar a mensagem original do PT? Até o Raul Pont, que pretende disputar a presidência do partido, recebeu doações do BMG, um dos braços financeiros dos rolos atuais.

Privataria
Falava-se muito e com boa dose de razão contra a ''privataria'' de FHC. Essa, do contubérnio entre público-privado de hoje, é muito mais grave.

Barricada
Reflexão psicossocial: em Curitiba em procissão há mais gente do que em desfile de Momo. Por que daria certo resolver problemas de governo (pedágio, transgênicos e Porto) mobilizando sindicatos e áulicos? É barrigada.

Folclore
Noel Nascimento, procurador de Justiça e romancista, está em Guarapuava e o prefeito lhe faz uma consulta sobre o que fazer com o hábito do pessoal que ia ao clube da cidade armado. Sugeriu que exigisse gravata e explicou: ''quem se arruma, põe roupa limpa, toma banho e esquece da arma''. E houve desarmamento mais eficiente do que o da campanha atual e que anima o referendo.

Irracionalidade
O lado irracional do torcedor é tempero da vitalidade do futebol. Na derrota do Atlético houve foguetório, dos coxas em maioria. E até carreata, o que é a glorificação da inveja e do ressentimento.

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