O lado bom da autofagia

Com a repercussão em torno da inspeção feita na Fiep e encaminhada ao Tribunal de Contas da União percebeu-se claramente que o sentido da autofagia paranaense operou para valer. Curiosamente, na gestão passada, quando havia iregularidades, só recentemente apuradas, imperava uma blindagem excepcional em defesa do dirigente, como de resto se dá com os governos e personalidades da sociedade cartorial.
Nossas entidades de classe são extremamente frágeis e raramente se vê alguém com a personalidade de um Oscar Schrappe Sobrinho e Carlos Alberto Pereira de Oliveira e mais recentemente Marcos Domakoski (basta lembrar de sua postura em relação à privatização da Copel), no caso da Associação Comercial do Paraná, ou de pessoas de fibra como os Godoy, de Londrina, que tiveram peito de comandar as operações contra o confisco cambial do café nos anos cinquenta.
Para uma sociedade habitualmente passiva e conformista como a nossa, incapaz de dar exemplos como os de Londrina e Maringá que derrubaram seus prefeitos, há uma tortuosa virtude na autofagia porque ela pelo menos submete alguém, nem sempre com justiça, ao contraditório. Fôssemos uma sociedade como o liberal Ralf Dahrendorf imaginou na cidadania radical esses ''teasers'' dos nossos governantes, alegando feitos improváveis nos outdoors, em dourados números, seriam investigados para saber se tinham procedência no mundo real.
E se os governantes e líderes classistas fossem democratas apostariam na investigação, na denúncia e na transparência verdadeira, não na dissimulada que costumamos consumir. Tivéssemos jornalismo investigativo e essa história do transporte coletivo de Curitiba não ficaria limitada à conveniência dos lados em conflito, todavia capaz de fazer aflorar o que há de contaminado numa relação pactual de meio século.

Interação
Ficou visível, tanto no caso da operação ''Mãos Limpas'' como no da questão do transporte metropolitano que o relacionamento entre a prefeitura da Capital e o governo estadual é dos melhores como também nos ajustes urbanos. Há uma área em que essa cooperação pode ser ampliada: a do trânsito, um dos maiores problemas da Grande Curitiba e dos centros de porte. Curitiba tem um sistema de circulação absolutamente caótico e cada vez mais agravado com o fato de que a cada mês ingressam quatro mil motoristas novos no sistema. As ações de segurança, como as deflagradas em Curitiba, Londrina e Foz do Iguaçu, apoiadas logisticamente em deslocamento massivo de tropas, poderiam ser complementadas com esse tratamento no trânsito, até porque ele é um dos maiores, senão o maior, fator de violência.

Relação aberta
É possível uma relação aberta entre governo e mídia e que não despiste apenas um cenário de submissão, como na realidade se dá. Toda essa discussão em torno do ''mensalão'' paranaense é permeada pela hipocrisia. Rádios, jornais e tvs precisam dos recursos do governo como de qualquer cliente. Criou-se por aqui a cultura da subordinação obrigatória como decorrente dessa relação, o que é visivelmente um absurdo porque em organizações profissionais e de porte esses recursos não são majoritários no faturamento. Isso que estão nominando, e de forma pejorativa, como ''mensalão'' é a praxe, a rotina da área e o pior é que os cínicos fazem um ar de espanto como se fosse novidade.

Folclore
A Internet é um sarro e revela que há gente educada e com fair play. Numa polêmica levantada por um cidadão em cima da suposta omissão da mídia para os protestos que estariam ocorrendo no país contra a corrupção um petista disse que havia engano, pois havia estado num enterro e que muitos se mostravam indignados vestindo luto. E outro, da ala contrária, afirmou que os caras pintadas não podem desfilar porque todos têm cargos em comissão.

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