LUIZ GERALDO MAZZA
O dedo no dique
Há uma lenda na Holanda, terra dos diques, do menino-herói que descobriu uma fissura num deles e evitou uma tragédia tapando o vazamento com o dedo. Ante o fato ocorrido na Usina de Salto Caxias, com uma fissura mais séria do que a da história referida, percebe-se que a Copel preferiu o silêncio, que ocultaria a sua responsabilidade na fiscalização da obra e obviamente da empreiteira, no caso a DM que fizera parte do triunvirato que construiu Segredo junto com a Sinoda e a Cesbe.
Não adianta agora ficar em busca de culpados e no tempo ocorrido (a obra foi inaugurada em 1999 por FHC, gestão Lerner), pois só agora essa empresa, tida como inexpugnável, se vê obrigada a admitir um fato de que tem conhecimento há mais de seis anos, já que responde pelo acompanhamento da obra. O silêncio não lhe reduz a responsabilidade como também se dá, segundo entendidos, no caso dos investimentos feitos no Banco Santos no fundo de pensão dos servidores da empresa, dada a notória influência dos dirigentes administrativos sobre essas organizações.
Dedo no dique, mordaça na boca.
Precedentes
A Copel não é perfeita, nem mesmo o seu maior dirigente e líder, o estadista Pedro Viriato Parigot de Souza. Uma das obsessões de Parigot, a reversão do Rio Negro, ocupou por muito tempo a mídia e deu em nada. A primeira grande obra, extraordinária criação Capivari-Cachoeira, quando da conclusão da bacia de acumulação, houve problemas ambientais com a formação de algas e que acabaram invadindo a área subterrânea das turbinas. A Copel teve que apelar à experimentação que foi do combate biológico ao bombeamento para acertar um problema de aeração. Num congresso de grandes barragens houve referência a um abalo sísmico que teria ocorrido no complexo hidrelétrico com o fenômeno do ''desabamento tectônico'', exercido pela pressão das águas sobre o fundo.
Sismos
Sismos podem ocorrer com frequência em usinas. No Salto Capivara tivemos em cidades como Primeiro de Maio rachaduras de paredes em numerosas casas. Em Itaipu, ainda recentemente, detectou-se na entrega de duas turbinas que ambas continham fissuras, trincas nas cruzetas. A binacional exigiu do consórcio equipamentos novos e aplicou multas contratuais pois esse fato alterou seus cronogramas. Dá para imaginar a consequência que adviria de tamanho defeito, se não tivesse sido apurado e corrigido.
Silêncio
No jornal ''Última Hora'' o diretor regional, Ari de Carvalho (mais tarde criaria o ''Zero Hora'' em Porto Alegre que venderia à RBS e assumiria o comando e após a propriedade de ''O Dia'' no Rio de Janeiro) fez um acordo com o governo Ney Braga em que, além da figura do governador, ficavam fora de qualquer crítica as estatais Copel, Badep e Banestado, maiores anunciantes. Fui por algum tempo chefe de redação e tínhamos a liberação do ''pau geral'' em outros setores como polícia, saúde, educação, assistência social, saneamento, o que dava ao jornal uma aparência oposicionista, de combate e charme ao governante e suas estatais. Greves de professores, por exemplo, tinham indução de UH.
Haja custos
Não há motivo para pânico, mas dá para perceber que o esvaziamento da represa e a reconstrução da barragem terão um custo elevado, como se deu singelamente com o prédio do ''Fórum'', paralisado nos anos 90 e agora corrigido com perda de andares e a preços superiores ao projeto original.





