O cosmopolitismo ''country''

Com os primeiros capítulos da novela ''América'' houve a retomada da ''arte'' country. Há puristas que se horrorizam com essas condicionantes como se isso já não fizesse parte do nosso acervo. Nos anos 50, Bob Nelson vestido como um caubói nos filmes, shows e auditório de rádio, fazia sucesso com marchinhas em ritmo norte-americano e marcadas pelo ''io-le-ré-ri-ti'', um refrão permanente nas composições. Lembro de uma ''Quando monto em meu cavalo// jogo o laço// prendo logo,// prendo logo um coração// eu sou caubói// e gosto muito de um abraço// mãos ao alto e não vá dizer que não!!//'' E continuava ''eu sou vaqueiro// capataz de uma fazenda// nas horas vagas também toco violão// o meu cavalo é ensinado// leva bilhetes para a filha do patrão!''
É claro que havia paradigmas cosmopolitas como o de Roy Rogers, do cinema americano, herói e cantor, que de certa forma influíam no processo. No rigor de analistas como Tinhorão, isso tudo era alienação, de Carmen Miranda até (imaginem) a bossa nova. Muita gente brande esses argumentos agora com a trilha sonora da telenovela, mas é preciso considerar que há também peças brasileiras e que preservam a nossa identidade. A indústria cultural é satânica e o que temos como música sertaneja, pelo menos no que diz respeito às mais executadas, nada tem a ver com sua origem de raiz.

Lição osvaldiana

Osvald de Andrade criou o movimento antropofágico que, de certa forma, sugeria que absorvêssemos o cosmopolitismo e lhe déssemos uma coloração nacional. Creio que nem Roberto ou Erasmo Carlos sabiam disso, ou de tal cogitaram, quando botaram um filtro no roque à nossa maneira.
Dos carnavais lembro de uma genial quando virou moda o ''boogie-woogie''. Vejam que primor foi uma dessas criações no ritmo supostamente colonizador: ''Chegou o samba, minha gente// lá da terra do Tio Sam com novidade// e ele trouxe uma cadência que é maluca// pra mexer com a cidade// o bugue-ugue, bugue-ugue, bugue-ugue// a nova dança que balança,// mas não cansa// a nova dança que faz parte// da política da boa-vizinhança//'' Justamente essa questão da Segunda Guerra é que está na origem da ida de Carmen Miranda aos Esteites e também esse caso específico do ''boogie-woogie''.
Lembremos porém que o valor nacional se afirma quando temos entre os maiores do mundo, batendo os ianques, alguns dos nossos peões de rodeios.

Deformações

A propósito dessas questões ligadas à cultura reflexa, vimos agora com a adoção do regime de cotas na universidades (cópia de padrões americanos) o grau de radicalismo de alguns que intervieram nos debates sobre negritude. Um deles bateu todos: disse que miscigenação é estupro. Posição claramente racista, ainda que centrada na idéia de preservar identidades e auto-estima. Ora não há um só geneticista que não tenha captado a tendência inelutável para o ''amorenamento'' do brasileiro. Como ensinava o genial Newton Freire-Maia.

Futebol

Também o futebol, que é alavanca para a mobilidade social e a interação do negro, como Mário Filho revelou em sua obra, é prova de que seguimos a lição osvaldiana, dando à prática uma concepção essencialmente brasileira. Pena que sejamos os maiores dentro do campo e minúsculos na gestão do processo. O que ganhamos dentro do gramado perdemos fora dele.

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