A nossa canção
Vivemos fazendo reflexões sobre a nossa identidade e não temos uma composição musical que nos defina. Uma das mais conhecidas seria ''Maringá'', de Joubert de Carvalho, que nominou a cidade. ''Mocinhas da cidade'', de Nhô Belarmino e Nhá Gabriela e ''Bicho do Paraná'', do João Lopes, seriam outras. A meu ver, porém, ''Estão voltando as flores'', marcha rancho do Paulinho Soledade (Helen de Lima foi uma das que a interpretou), é mais marcante. Mineiros tem o ''Peixe Vivo'' e ''Oh Minas Gerais'', gaúchos ''Prenda minha'' e tantas outras como ''Menino do Pastoreio'', cariocas ''Cidade Maravilhosa'', baianos um vasto repertório além de Caymi, paulistas com Adoniran etc. Está aí lançada a idéia de uma avaliação sobre o nosso cancioneiro popular e a música símbolo.

Soledade
Paulinho Soledade, falecido no ano passado, ligado à família Valente, era de Paranaguá e pertenceu ao Clube dos Cafajestes do Rio ao qual se ligavam entre outros o Stanislaw Ponte Preta, Carlinhos Niemayer e Ibrahim Sued. É autor de obras primas como as marchas rancho ''Estão voltando as flores'', ''Um pequenino grão de areia'' e ''Zum Zum'', sucesso carnavalesco. Consta, e isso tem jeito de folclore, que acometido de uma infiltração tuberculosa teria se isolado no Haras Valente, Porto Amazonas, para recuperação e ao receber a notícia em Curitiba de que estava curado viu os ipês florindo na Praça Tiradentes e daí teria surgido ''Vê estão voltando as flores// Vê nesta manhã tão linda// Vê como é bonita a vida// Vê há esperança ainda...'' É melodrama para não se botar defeito.

Peixe vivo
Uma das coisas que mais me comoveu num congresso de antropologia foi ouvir Aires da Matta Machado, o grande linguista, velhinho e quase cego, entoar o ''Peixe Vivo'' para lembrar a mineiridade, aquele tempo em alta com a escalada de Juscelino Kubitschek, governador que iria à presidência e mergulharia esse país num ciclo de euforia e afirmação. Algo muito mais forte e concreto do que as efabulações marqueteiras do ''país de todos'' e da desesperada busca de auto-estima neste ciclo de Lula.

O ufanismo
Há uma linha comum nos governos paranaenses no triunfalismo. ''Paraná Maior'' de Lupion, primeiro governo, contagiou o povo no volume e representatividade de obras. O maior foi de Ney Braga e que teve sequência com Paulo Pimentel até Jaime Canet Júnior. De todos do PMDB o melhor foi o de Richa pelo sentido político da gestão democratizada que os que vieram depois não adotaram, embora tentassem se mostrar tão diferenciados entre si, de Alvaro até Requião atual. A ideologia, dispersada em ''sprays'' nacionaleiros e de retorno ao Estado Provedor, nostalgia inviável, de Requião atual é apenas um contraponto ao liberal cosmopolitismo da moda, como a definia Hélio Jaguaribe no Instituto Superior de Estudos Brasileiros, fábrica de ideologia. Perde-se pela extrema superficialidade e descompromisso mínimo com a realidade concreta.

Folclore
Havia, no Palácio São Francisco, sede do governo, dois guarda-costas, o Dominguinho e o Chico Gato. Este vivia me observando nos papos estudantis em que dávamos a impressão de que a revolução viria amanhã como os pentescostais esperam o encontro com Jesus. Um dia fui ao Palácio para uma sala reservada em que Munhoz da Rocha conversava com o senador Ivo de Aquino. O fotógrafo Miló Fogiato foi ligar o flash e estourou. Chico Gato, que vira minha entrada com preocupação, abriu, esbaforido, a porta imaginando um atentado.

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