LUIZ GERALDO MAZZA
A poliarquia em ação
A sociedade atual tem vários centros de poder, uma poliarquia, em que além do que é institucional (Executivo, Legislativo, Judiciário), temos variadas formas de participação, através do movimento social, das ONGs, sindicatos, cooperativas, representação de minorias (algumas delas caminhando para maiorias, como se vê na novela ''Senhora do Destino'' com o aprofudamento da relação homossexual masculina e feminina). Ainda ontem com a vinda da missão da ONU, que veio pleitear que não haja despejos de invasores urbanos, percebeu-se o quanto esse protecionismo guarda uma visão parcial das coisas como se dá com o Movimento Sem Terra. Tanto num caso quanto no outro o foco é o do interesse isolado, desconsiderando-se o eventual direito do proprietário invadido, seja público ou privado ou o que diz a lei.
Percebe-se que essa intervenção é feita em cima de mais um instrumento a pretexto da ''discriminação positiva'' e com o objetivo generoso de arrumar a pirâmide social como se todas as invasões fossem impostas pelo chamado estado de necessidade e da condição famélica. Despreza-se obviamente o que a Justiça possa entender desses conflitos e daquilo que está na lei a que todos subordina, porque os orgãos do Judiciário seriam ''formalistas'' ou ''burgueses'' e a legislação a serviço das classes dominantes.
Uma ordem que respeite a diversidade não pode assimilar nem o ponto de vista do empresário que se desligue de suas funções sociais e muito menos o dos que pretendam contestá-la. Se na economia urge um equilíbrio entre a ação dos ecologistas e dos empreendedores, assim também em todos os demais campos de manifestação. Imagine-se, por exemplo, que o Brasil seguisse a terapia de setores da Igreja e do MST para mudar o modelo econômico rumo ao abismo da utopia regressiva. Da mesma forma que é preciso levar em conta as razões da luta pela terra, ainda mais num país de dimensões continentais, não se pode transformar o agrarismo na questão única e prioritária, como se houvesse aí um sentido final. Esse mundo agrário dos sem-terra conflita abertamente com os modelos de produção capitalista hoje em prática e que asseguram os superávits da balança. Portanto ele é útil por firmar-se na propriedade familiar, mas não o único, já que o agronegócio é dominante. Também neste caso busca-se o sentido da diversidade com um modelo não excluindo o outro.
Não se obtém a paz assegurando-se previamente ''indulgências plenárias'' a invasores. Uma tolerância que desconsidere a imanência da lei não serve a ninguém, o que não implica em aceitar os despejos violentos, uma vez que podem ser feitos com habilidade, diálogo e pacificamente.
Bizarrice
Movimentos sociais não podem ser criminalizados. Todavia não devem, em hipótese alguma, ser previamente beatificados e até canonizados.
Axioma
Mudam governos, mas persistem os mesmos contratantes seja no aluguel de carros (o edital de licitação foi alterado três vezes em Curitiba), na exploração dos transportes coletivos, na coleta do lixo etc. Teria sido isso que levou Roberto Freire, do PPS, a pregar a desprivatização do Estado?
Glosa
Boa parte da ''mais valia'', que diziam ficar inteiramente com os patrões, acaba nas mãos de advogados trabalhistas.
Epigrama
A suspensão, mesmo que provisória, do aumento da verba de gabinete na Câmara Municipal de Londrina reafirma a tradição participativa, a mesma que deu vitórias à oposição no regime militar e a que derrubou Belinati.





