Variedades de renúncia
Há renúncias afirmativas tanto no amor quanto na política. As do amor surgem inclusive na MPB com aquele ''hoje não existe nada mais entre nós// somos duas almas que se devem separar... já sofremos tanto que é melhor renunciar''. E aí aparecem, às vezes, as mais nobres e mais perversas intenções como de resto se dá na política. A renúncia de Jânio Quadros é uma dessas situações em que fica a suspeita de uma trama para voltar nos braços do povo, e aí com todo o poder que o presidente não pretendia partilhar com o Congresso. Dizem que o então governador de São Paulo, Carvalho Pinto, teria negado apoio logístico à operação. Já o nosso Ney Braga estava de tal forma ligado ao presidente que fazia apelos patéticos para que renunciasse à renúncia.
No Paraná tivemos renúncias para ascender a postos mais altos como as de Bento Munhoz da Rocha e a do seu ex-cunhado, Ney Braga, para assumir a pasta da Agricultura. Das renúncias nobres uma, em especial, deveria sensibilizar Londrina: a do deputado Zaqueo de Mello que saiu do cenário por não concordar com o compadrio e a escancarada falta de ética. Religioso, educador, durante anos colaborador desta ''Folha'', Zaqueo foi o paradigma da renúncia nobre, da que deixa exemplo e pune os que fazem da política uma feira, uma zona.
É claro que não dá para comparar os casos citados de renúncia com o especulado ontem em torno do afastamento de Doático Santos, filibusteiro de plantão do requianismo, atual presidente do diretório municipal do PMDB. Não que seja menor por ser de campanário, mas por aparentar inverossímil, dada a pobreza de quadros, tanto políticos quanto administrativos, do PMDB e que tem no dirigente municipalista um dos mais identificados com Roberto Requião que ninguém imagina renunciando, a não ser para desincompatibilizar-se e disputar outro mandato, como quando entregou o bastão para Mário Pereira. Doático é uma extensão corporal de Requião num plano menor da hierarquia. Ele simplesmente deixou o posto à disposição do governador que não aceitou a saída.
Como o nosso quadro partidário é ditatorial, o gesto de Requião tem a força de um Ato Institucional. Tivéssemos vida partidária efetiva o PMDB estadual exigiria a mudança do diretório municipal por ter sido desastrado na eleição. Como silogisticamente seria um puxão de orelha em Requião, autor da tese da coligação com o PT e líder maior do partido, dá para perceber que se trata de coisa impossível. Não somos uma república, essa a verdade. O privado e o público se confundem e o pessoal se sobrepõe ao coletivo.

Bizarrice

No PMDB municipal pobres de votos, embora devotos, prevalecem.

Axioma

No fim de tudo, o PMDB lembra gruta de romaria havendo mais ex-votos do que votantes, a sombra das vitórias passadas, tidas como milagre e graça.

Glosa

Dobrandino pensou que tinha dobrado Doático e dobrou-se como aconteceu na sua derrota em Foz do Iguaçu.

Epigrama

Não sei se o que perturba é o nanismo da política ou o onanismo.

Folclore

Numericamente a oposição a Richa era semelhante à atual. Como Richa era um democrata permitiu o debate público da bronca entre os secretários da Fazenda e do Planejamento, impensável hoje. Basta lembrar Pisseti e Mussi.

Cromo

''Amar é viver, é um doce prazer, embriagador, invulgar// o que existe no amor é saber renunciar''. Dor de cotovelo na MPB e na política.

Aforístico

O Papa é contra a canonização da democracia e com razão, pois são os políticos que a degradam e a transformam numa expressão do mal.

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