A volta de Teixeirinha
O governo estadual agiu bem em não recorrer da pendência judicial em que a viúva e o filho do líder sem-terra Teixeirinha pleiteavam indenização. Como um espírito apegado à matéria, esse mártir de Campo Bonito se constituía num ponto sério da carreira de Requião, até porque alguns políticos usavam o episódio em campanhas eleitorais para atingi-lo. Tanto que o governador moveu processos contra jornalistas e políticos que abordavam o tema. Um dos que até hoje mantém uma demanda na instância eleitoral é o ex-deputado Joni Varisco que afirmou ter ouvido a ordem de Requião para a PM em Cascavel capturar o sem-terra, a quem se atribuía o fato, pela circunstância de ser o líder do acampamento, a morte de três PMs. O vice-governador Mário Pereira e o então deputado Nestor Baptista não ratificaram a versão de Varisco ao serem apontados como testemunhas.

CAIXA PRETA Para o MST era importante que houvesse a reparação indenizatória, o que não significa, entretanto, que os fatos tenham sido esclarecidos. Nem os sem-terra que executaram os três milicianos e muito menos os policiais que agrediram os presos em Cascavel foram punidos e por uma razão muito simples: o inquérito na comarca de Guaraniaçu tem andamento lento, embora a denúncia contra 14 acampados que teriam linchado os policiais tenha sido formalizada.
A indenização à família de Diniz Bento da Silva é importante para o MST na medida em que vai além da criação de monumentos e celebrações, como os de Oscar Niemayer para lembrar o sem-terra abatido no governo Lerner por uma bala que ricocheteara no asfalto, ou mobilizações para recordar massacres como os de Corumbiara e El Dorado de Carajás. Como será também a defesa dos acampados que executaram os PMs.
O nível de segurança nessas pendências e na forma como agem instituições, tanto do Executivo como do Judiciário, lembra o de uma casca de ovo que, a qualquer momento, pode ser rompida. Isso sem contar absurdos como a derrubada de uma das maiores reservas florestais de araucária do mundo naqueles pontos invadidos da Fazenda Araupel pelos sem-terra. Estes, já o disse e repito, não merecem, de um lado, a criminalização genérica, mas também não podem ser beatificados, como pretende a Igreja, numa espécie de justitificativa prévia, de indulgência plenária permanente, aos seus conhecidos transbordamentos.

ÔNUS DA PM Outro exemplo é para a Polícia Militar que recebe o maior ônus nessas tensões como se viu na forma como os políticos tiram o seu da reta em ações normais de dissuasão e jogam todo o ônus para a corporação, tal qual se viu nas bombas de efeito moral contra os professores no Centro Cívico, gestão Alvaro Dias. Este perdeu uma eleição no primeiro turno diante de Lerner com a exploração marcante do episódio com os membros do magistério de luto, postando-se de costas para o palanque dos comícios. Em certa medida Requião não teve perdas eleitorais no caso Teixeirinha, já que o tema não foi massificado como o dos professores e que foi fatal para Alvaro Dias.
O jogo arriscado da política de ''fair play'' com as invasões de terras é um desses exemplos. Na questão dos professores em 1988 isso também ficou patente quando Alvaro Dias, e aí com certa razão, se recusava a aceitar um IPM que enquadrava apenas civis e nenhum militar. Absurdo que se repetiria no IPM de Campo Bonito que, apesar de quatro mortes e de todo o quadro de violência, foi destinado ao arquivamento. Ironicamente um diminutivo favoreceu e outro não chegou a prejudicar eleitoralmente Roberto Requião: um falso pistoleiro de nome Ferreirinha ajudou-o a ganhar uma eleição, apesar de sua cassação temporária pelo TRE, após revertida na instância superior e um líder do MST, apelidado de Teixeirinha por sua semelhança com o cantor popular, abatido de forma cruel segundo os sem-terra, foi uma pedra no seu caminho, menos poética do que aquela reticente do poema de Drummond.

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