A fala autárquica

Não temos instrumental para falar ao Brasil, para transpor divisas e fronteiras. Enquanto isso vemos a hegemonia dos gaúchos, não apenas com a força de sua ''identidade'', mas com instrumentais apropriados como aqueles da RBS, do grupo Sirotski, abrangendo todas as mídias, todas elas com um alcance que extrapola o próprio território nacional.
Essa, aliada à baixa expressão dos nossos políticos e o seu baixíssimo índice de credibilidade, é a causa maior do nosso isolado autárquico, falando para dentro. O que está expresso na licitação das verbas oficiais com beneficiários desconhecidos, em que pese a presença da multinacional Mc Cann Erickson. Diga-se a propósito que nessa área é sempre assim e o pior é que nem as favorecidas do passado, se é que possuem argumentos para tanto, impugnam as licitações. Ou, então de consciência culpada, não chiam porque lembram do passado recente.
Nossa dimensão é essa, a da mediocridade. Por isso dá para elogiar, em parte, a iniciativa do governador Requião de ampliar a difusão da TV Educativa, desde que não se prestasse ao culto da personalidade, o que pelo traço fascista prejudica a boa intenção de nos colocar no mapa nacional. Ainda nas férias em Santa Catarina tive oportunidade de captar o sinal da nossa tv pública, o que não implica em que seja partidária e que se empenhe na prioridade de exibir a face coletiva, o modo de ser paranaense e não as histrionices do governador.
Essa reflexão vem a propósito de uma especulação em torno de uma possível venda da CNT, com cabeça de rede no Paraná, para um grupo religioso, o que, felizmente, foi desmentido. Resta que haja apoio para que essa rede cumpra o seu papel e isso com a melhora da sua programação num campo tão competitivo.
Se a tv pública operasse em favor de nossa terra e dos seus valores culturais como a RBS faz em nível nacional, e não apenas no proselitismo de Requião, daria para iniciar a reversão do processo de autarcização.
TEIXEIRINHA A Comissão Pastoral da Terra entrou ontem com pedido de execução de título judicial em favor da viúva do líder sem-terra, Diniz Bento da Silva, assassinado em Campo Bonito em 1993, primeiro governo Requião. Trata-se da indenização de R$ 682.871,41. Isso se tornou possível depois de decisão do Tribunal de Justiça, da qual o governo resolveu não recorrer. Poderia haver uma ação regressiva contra os responsáveis pelo episódio, os PMs envolvidos na operação de caça e morte do Teixeirinha, mas isso seria extremamente difícil, pois o inquérito policial, comarca de Guaraniaçu, não andou a despeito de ter ocorrido a morte de três milicianos praticamente linchados. Estes não tiveram reconhecido direito à indenização pelo fato de não estarem em serviço, segundo a PM e a decisão do Tribunal de Alçada, mas empenhados em recuperar máquina agrícola em favor de um empresário.
O episódio é pedagógico: as ações temerárias tanto do MST como da repressão somadas à postura dos governantes pode dar nisso. Outro detalhe: o IPM optou pelo arquivamento do caso, apesar das quatro mortes e das violências cometidas contra os sem-terra na prisão em Cascavel. E mais: o Brasil foi condenado em órgão de Direitos Humanos da OEA.
FOLCLORE Dizia-se, em piada corrente nos anos 20, em Hollywood, que quando os financiadores da película ''King Kong'' foram dar a resposta ao pedido dos produtores um dos executivos, charuto rolando na boca, disse que estaria aprovado, desde que tirassem o macaco da história. É a dificuldade também no caso da TV Educativa de reduzir as aparições na ''telinha'' do seu ator principal e dos seus convidados para críticas ao presidente Lula.
CROMO Joguei pedrinhas em tua janela, seresteei na calçada e a lua grávida, boiando no azul, me prestou muito mais atenção. Nada me impediu que eu a imaginasse flutuando e sorrindo atrás das cortinas, atenta aos meus rogos.

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