LUIZ GERALDO MAZZA
A blague como virtude
Defendo a tese de que há uma leitura diferente daquela tão decantada frase do Che Guevara que ilustra camisas de punks e radicais, de jovens e coroas de todo mundo: ''endurecer-se sem perder a ternura'' pode ser encarado como sem perder o humor. Um comunista com dor de dente, frase de Lerner para radicais tidos como de esquerda, jamais pode ter humor ou ternura. Seriam carências fatais como a do homem distante do anjo e das asas no dizer aristotélico.
Nem sempre é possível somar a indignação à ternura e muito menos ao humor, mas a história é cheia de exemplos de que nem sempre a blague é escapismo, fuga da realidade, ''alienação'' como dizíamos nos anos 50 e 60. O saque do carioca, transfixado por um punhal, sangrando na calçada de Copacabana e que ao ser perguntado se dói responde ''só quando eu rio'' é algo dessa extração.
A RESPOSTA - Tenho o hábito de fazer críticas sistemáticas a governantes e isso acontecia com Lerner. Numa ocasião, em meio a tantas observações negativas, vi mérito numa de suas atitudes. Foi o suficiente para que o então prefeito da Capital, ao ser informado por assessores do elogio, replicasse: ''exijo o direito de resposta''. Não há ''non sense'' na réplica na medida em que se acentua o seu óbvio senso crítico e que tive que assimilar como estocada inteligente, fina.
Da mesma forma o governador Roberto Requião às vezes se sai muito bem nessas artes de manejar o florete. A referência feita na semana passada a um dos seus discursos no Senado quando se discutia a luta contra o isolamento manicomial, ainda praticado como terapia no país, é um desses feitos. ''Sou favorável a hospícios abertos. Vejam só o Senado: eu melhorei, o Pedro Simon está calmo e o Cunha Lima não atira mais em ninguém''. As duas frases são lapidares ao ver no psicodrama do Senado algo próximo da fronteirice e uma expressão clássica do ''hospício aberto'' e com o detalhe da referência à própria pessoa, com a confissão de que teria melhorado, e a fatos ligados a dois colegas ganham até um sentido pedagógico.
TERNURA E HUMOR - Pena que esses achados espirituais não marquem a nossa rotina, mas servem como indicadores de formas sofisticadas de relacionamento humano mormente quando tendem a degradar-se no front político. Por essa razão é que na última versão do ''Folclore Político'', codificada em milhares de situações vividas em todo país (Minas Gerais claramente é a vencedora) por Sebastião Nery, ainda é pálida a presença paranaense, em que pese o fato de termos personagens como Manoel Ribas, Ney Braga, Aníbal Khury e tantos outros que justificariam maior exploração desse lado mais ameno da vivência política. Na verdade o trabalho de Nery vai muito além de uma compilação de quadros anedóticos para revelar um universo comportamental, quase uma concepção de vida desses personagens e reveladora de que a hostilidade caminha ao lado da conciliação como pólos de uma dialética inesgotável.
IRONIA SOCRÁTICA - Há um pouco de exercício socrático nesses ensinamentos: o anedótico passa a ter uma função educativa e corretora. Aliás, o filósofo só não deve ter feito graça ao ver-se condenado pelo obscurantismo a beber cicuta. Num ensaio de Evaristo de Moraes sobre a análise da pena de morte aplicada a Jesus Cristo na perspectiva jurídica e que o autor afirma ter sido expressamente desrespeitada (o sinédrio, corpo judaico, não teria competência para a decisão) coloca também o caso de Sócrates como decisão ilegal, fruto da opressão e arbítrio.
Quando se discutia nos anos sessenta se Miran Pirih, iugoslavo, poderia ou não ser deputado como ''naturalizado'', alguém citou Pontes de Miranda, grande constitucionalista, como obstáculo à aceitação e o parlamentar se saiu com essa: ''esse Pontes de Mirrranda não passa de grande fofoquerrro''.





