Viver o momento

Na sociedade do espetáculo, como a viu o grande Guy Deborde, o exercício de tudo corresponde à linha do teatro: a performance se sobrepõe ao conteúdo das coisas. Na sequência de Deborde, que tratou o tema numa perspectiva histórica e filosófica, o escritor Roger Gerard Schwatzemberg lançou, também com impacto, ''O Estado espetáculo'' enfocando a questão no estrito palco da política e da administração. No momento ele veria o acerto de suas teses com mais um caso de entronização de um ator, como já ocorrera com Ronald Reagan e Clint Eastwood, o austríaco Arnold Schwarzeneger, hoje governando a Califórnia, uma das principais unidades federativas dos Esteites.
Político hoje, até por imposição de ''marketing'', deve ter algum domínio dessas técnicas, entre elas a da ''marcação'', fundamento chave para o deslocamento do ator em cena. Essa linha de raciocínio vem a respeito do que se pode obter no apoio ou contestação aos fóruns de Porto Alegre e Davos. Lula não deixa por menos e se diz numa postura missionária e pontifical: a de ligar os dois conclaves. Pontifical porque embora sugira a referência ao Papa, ela, tanto quanto a religião (filologicamente ''re-ligar''), funciona como ponte, certamente mais firme e adequada do que essa da BR-116 no Capivari até porque pretende a aproximação do terreno com o sobrenatural.
PARÊNTESE CONCEITUAL
A propósito, sempre achei inadequada a dicotomia entre ''econômico'' e o que se tem como ''social''. Fiz até uma palestra em Faxinal do Céu em mobilização de todo o setor social do governo (trabalho, educação, saúde), gestão passada, a respeito do assunto. Organismos internacionais como a ONU e a FAO criaram o indicador de desenvolvimento humano, o IDH, para uma visão interativa desse processo. Já lembrei que na doutrina de planejamento do Paraná pesa muito a filosofia do padre Lebret do Movimento de Economia e Humanismo e que no Brasil era representada pela SAGMACS, Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais, responsável aqui em 1963 pelo primeiro plano global, trienal, cientificamente elaborado.
Feito esse parêntese conceitual, nos dois fóruns, há um palco e o Lula soube explorar a oportunidade como manda o figurino. Já o governador paranaense procurou ir além de efeitos cênicos que o favorecessem no Brasil para tentar, o que já tem feito com razoável frequência, uma beliscada no hemisfério sul ao se apresentar colado com a figura de opereta, Hugo Chavez, embora visto com seriedade por ingênuos, radicais e perplexos. O senso de oportunismo é marca da política: o passionalismo da guerra contra os transgênicos foi explorado quando sabidamente a postura do governador é de minoria, o que a torna mais atrativa para efeitos dramáticos e à idéia da exclusão, ainda mais quando se a insere como outro feito do imperialismo e das transnacionais, conforme afinal o receituário da paranóia persecutória da moda.
O OPORTUNISMO
Há quem diga, pragmaticamente, que os melhores atores da política são aqueles que vivem o momento e não apostam demasiadamente na forma como serão olhados amanhã como exemplo. Requião não se preocupa de maneira alguma com as contradições diárias (guerreou o pedágio, mas quer instituir um público; fez terror com a usina de gás e agora quer a Copel como majoritária na sociedade; implantou o ''Disque Quércia'' para afrontar o dirigente nacional do PMDB e hoje é o seu aliado preferencial), pois parece confiar na amnésia da maioria. Poderia se apresentar, à maneira de Raul Seixas, como metamorfose ambulante, para opor-se ao pensamento acabado e consagrado.
A melhor epistemologia a respeito é daquele santo que dizia ser necessário viver como se nunca fosse morrer, mas preparado também para a contingência incontornável da morte. Isso é sério demais para o que estamos abordando.

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