LUIZ GERALDO MAZZA
Estilingue e vidraça
O PT não deixava em paz os eleitos, ainda que originários dessa coisa vaga tida como esquerda brasileira, nas manifestações de rua. Derrubou os muros do palácio governamental na gestão de Franco Montoro e agrediu Mário Covas quando este se mostrou disposto a enfrentá-lo em batalhas de rua, criou os maiores transtornos em toda a trajetória da democratização como a da negativa de assinar a Carta constitucional de 1988 ou os cercos impiedosos no governo de FHC. Pois agora colhe a safra do que plantou ao longo do tempo com as vaias e manifestações contra o seu líder maior e presidente no Fórum Social.
Se havia um transbordamento principesco no governo do seu antecessor, no do atual temos algo próximo de Luis XIV em torno do deslumbramento com o poder, enquanto fica, e isso cada vez mais visível, maior o fosso entre as promessas e compromissos de campanha eleitoral, e mais do que isso de trajetória, e a realidade. Lula conseguiu reverter num congresso da CUT um clima hostil, mas não se pode dizer que tenha obtido o mesmo agora em Porto Alegre. Na realidade tem mais empatia em Davos, nos Alpes, do que à margem do Guaíba.
Em tese, pelo menos, a maior parte das tonalidades afetivas e ideológicas presentes em Porto Alegre votaria normalmente em Lula como opção certa para os dramas nacionais. Todo aquele ''mix'' de utopias é altamente identificado com tudo o que a marcha do líder metalúrgico representou, inclusive a do radical e ingênuo que o aproximava, no imaginário, de um Antonio Conselheiro. Fez bem o PT em defender-se e ao governo Lula até para o exercício do contraditório num acampamento aparentemente comprometido com a diversidade ao comparecer àquele encontro, talvez o último na capital de gaúcha de onde o PT também foi, com todas as honras, despejado.
Para um ideário em que o ''ser'' é mais importante do que o ''ter'', talvez essa ida de Lula e seus aliados a Porto Alegre surja como uma ''imersão'' de autocrítica e que talvez o revigore para Davos que mais parece o seu espaço atual, afinal o do poder e do sistema, com os quais tanto se identifica.
BIZARRICE Primeiro o governador Requião combateu o pedágio ao prometer fazê-lo baixar ou extingui-lo e depois passa a adotá-lo; depois anunciou ao mundo que a usina de gás de Araucária, por erros de engenharia, poderia explodir e agora quer, por que quer, ser majoritário no empreendimento via Copel. Claro que iria nos surpreender se passasse agora a combater o nepotismo. E para valer. Mas isso, obviamente, jamais irá acontecer.
AXIOMA A represa do Iraí ficou interditada, durante meses, porque um ornitólogo, a serviço de uma ONG, afirmou ser preciso proteger o ''macuquinho do brejo''. E na duplicação da BR-116, o empresário Joel Malucelli conta que longo tempo um dos trechos a duplicar ficou embargado pelo Ibama por causa de um casal de papagaios. É o Brasil tropical, abençoado por Deus.
GLOSA Em estudo na Copel o lançamento de debêntures, mas há quem entenda que ela poderia operar com o FGTS dos trabalhadores e com melhores resultados e ganhos patrimoniais no direito de recompra de ações.
EPIGRAMA Agora só falta politizar o caso do lixo hospitalar.
FOLCLORE O episódio do viaduto do Capivari confirma que o Estado brasileiro está na UTI e o governador Requião tem razão quando mostra que a busca por superavit primário e entesouramento da CIDE tornam a administração impotente. O mestre Belmiro Valverde comparou, e com razão, o Estado nacional a um eunuco, gigantesco e flácido, mas sem qualquer capacidade genésica.





