O alerta de Lamarca


No regime militar, quando tropas da Marinha, Exército, Aeronáutica e Polícia Militar de São Paulo fizeram o cerco ao capitão Lamarca para desmantelar um foco guerrilheiro nas imediações de Registro no Vale da Ribeira, as ligações entre o Sul e o Sudeste ficaram comprometidas na BR-116. A interdição da rodovia mostrou a necessidade de alternativas para assegurar a continuidade dessas comunicações e de forma indireta proclamava a urgência da BR-476 que praticamente morria no Paraná em que pese os esforços de seus governos fazendo as ligações para a Lapa e São Mateus do Sul e, posteriormente, a União da Vitória.

Com o deslizamento do aterro do viaduto antigo sobre a represa do Capivari-Cachoeira e suas consequências na obra-de-arte, além da tragédia dos caminhões que submergiram, tivemos, outra vez, ontem, o bloqueio daquelas ligações com São Paulo. A preferência opcional foi por Itararé, que acrescenta duas horas de viagem, sem falar no constrangimento de pagar pedágio, já que a BR-476 está pavimentada até a Ribeira no estado vizinho e o trecho paranaense não era recomendado, por estar em obras, pela Polícia Rodoviária Federal como opção.

Nos tempos de Lamarca, a guerrilha era uma evidência de que tínhamos Estado demais e nenhuma liberdade. Agora temos liberdade, inegavelmente, mas o Estado está aí falido, quebrado, sem qualquer sinal de vitalidade à espera de que dê certo as Parcerias Público Privadas (PPPs) para substituir o governo ausente e em torno das quais o presidente Lula pretende valer-se do Fórum de Davos para ver se consegue convencer investidores a apoiarem a mais uma panacéia.

O Brasil, já o disse, é a terra das panacéias e isso se verá agora nos dois fóruns, o dos pobres de Porto Alegre e dos ricos de Davos, ambos com fórmulas salvacionistas. As PPPs são uma nova panacéia como o foram o golpe de 1964, as diretas-já, a vitória de Tancredo no Colégio Eleitoral, a vigarice monumental dos Planos Cruzado e Real, este com a molecagem da paridade com o dólar, a Constituinte de 1988, as eleições de FHC e de Lula e a queda dos juros, apontada agora pelos bacalhoeiros como fórmula de solução final aos dramas do Brasil.

BIZARRICE - Enquanto o viaduto rachava, por força do deslizamento do aterro, na BR-116 o ex-prefeito de Bocaiúva do Sul Élcio Berti anunciava na mídia para junho a inauguração da estrada da Ribeira. Como Berti é o rei dos factóides como o de oferecer o sucedâneo do Viagra, o amendoim, à população para que crescesse e declarar guerra à camisinha, além de projetar um ovniporto para a descida de ETs na região, todo o mundo recebe o informe com ceticismo.

AXIOMA - Ontem passeata contra a violência em Piraquara: o último homicídio a cem metros de um bar dá também parte de razão à polícia.

GLOSA - A Lei Seca, desejada pelo governo, é nada enxuta: além de escorregar em princípios de Direito não passa de um escapismo da autoridade para a sua notória fragilidade e incompetência.

EPIGRAMA - Por falar em segurança, a licença do Ministério Público para que Luiz Fernando Delazari se mantenha na pasta se esgota na segunda quinzena de maio. Das duas uma ou talvez as duas: renova a autorização e/ou renova o secretário.

FOLCLORE - O governo estadual está fazendo farta divulgação sobre o Centro Cívico e sua suposta revitalização com a obra do Fórum, o mostrengo, já reduzido, como se fosse um bolo fatiado, em quatro andares. Ocorre que aquela obra parou justamente no primeiro governo Requião com o diretor do Decom, Luis Henrique Bonaturra, hoje procurador da República, estabelecendo o conflito com a Cotelli, a empreiteira, acusando-a de numerosas irregularidades. Depois perguntam por que o Brasil não anda para a frente.

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