Um cenário emocional

Para quem já erigiu o Bovê como paradigma, quando se trata da máxima tradução do atraso, não surpreenderá o fato de o Chaves, da Venezuela, bem menos interessante que aquele da TV mexicana, transformar-se na próxima edição do Fórum Social Mundial de Porto Alegre em expressão da alternativa de poder no mundo. E quem irá cavalgar nessa onda, segundo se comenta nos bastidores, é o governador Roberto Requião que se acredita, em função mais do que fala do que das coisas que faz, um dissidente da ordem econômica no país. Claro também que o emaranhado doutrinário, confuso e conflitante, das oposições mais radicais será abençoado naquele encontro.
Como nessas celebrações as aparências valem mais do que os fatos e o Bovê queimando um campo de experimentação de soja transgênica é um exemplo tão forte quanto o das suas mobilizações contra os sanduíches do McDonald's o governador paranaense poderá marcar posição em caixa de ressonância de maior efeito se puder ser identificado, operacionalmente, como um dissidente do monetarismo ortodoxo. Chaves obviamente por ser um suposto contestador dos Estados Unidos, sem o fulgor e a exuberância revolucionária de Fidel Castro, mas um populista visceral que sugere estar em posição equivalente ao cubano, o que é típico das analogias delirantes, pode fazer algum proselitismo nas precárias opções alternativas (em termos concretos) daquele tipo de público.
Ante a circunstância de o Rio Grande do Sul ser a potência agrícola que mais aposta na soja transgênica e o governo paranaense já ter feito manifestações em Porto Alegre em nome do produto ''puro'', o que é outra falácia, a não ser que se tratasse da ''orgânica'', a qual é impensável em termos de economia de escala, é possível que essa bandeira favoreça o governador pelo fato de mexer com a militância ambientalista. Lula deve ir ao Fórum como também o fará em Davos, na mesma linha comportamental anterior, e suas contradições com o MST e organizações basistas congêneres podem lhe gerar desconfortos maiores do que o das críticas de Requião e de todos os convocados da ''escolinha'', a maioria deles, como o jornalista Hélio Fernandes, hibernados nos anos 50.
BIZARRICE - Ano passado as tarifas da Copel e da Sanepar responderam pelo fato de a Grande Curitiba chegar à inflação maior do Brasil com mais de 9% quando a média brasileira oscilou em 7%. Agora a Copel vai reduzir o desconto aos consumidores adimplentes, o que pode significar uma orientação mais técnica por parte do futuro presidente, Rubens Ghilardi, e que implicará em reajuste tarifário médio de 5%.
AXIOMA - Quem perde mais: Requião com o pedágio ou Beto Richa com os ônibus? Há uma semelhança de situações, pois ambos prometeram baixar as tarifas e isso ajudou a decidir as duas eleições. Se não cumprirem, o prestígio cai.
GLOSA - Se a Copel é de fato a maior e melhor energética do país por que afinal suas ações valem menos do que as da Cemig, de Minas Gerais ? Vejam como estava a situação ontem: AN 47,77 e PN 57,40 na Cemig e AN 10,00 e PN 11,55 na Copel.
EPIGRAMA - Na ação que desbaratou a gangue do narcotráfico do Bairro Alto todo o comando da operação foi da Promotoria de Investigações Criminais. Aliás, apesar de polêmico, o controle externo da Polícia é do Ministério Público.
FOLCLORE - O melhor comandante que a Polícia Civil do Paraná teve nos últimos 50 anos foi o advogado Levi Lima Lopes. Quando esteve à frente do Detran enfrentou uma ''pesada'' com taxistas que, apoiados por políticos, em desobediência à regra de usar bonés que os identificavam lançaram, em sinal de protesto, os apetrechos diante da repartição pública.

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