LUIZ GERALDO MAZZA
Ainda símbolos
A justiça, dias passados, proibiu o prefeito Nedson Micheleti, de Londrina, de usar a logomarca que instituiu por não ajustar-se aos princípios constitucionais. O prefeito, como se sabe, promete recorrer. Ela é, sob o ponto de vista semiológico e de conteúdo, fichinha perto da comumente usada nos documentos, placas, cartazes e out-doors pelo governo Requião, aliás admiravelmente bem feita pelo artista Bira Menezes por expressar a posição das estrelas na constelação do Cruzeiro do Sul no dia de sua posse, 1º de janeiro de 2003. Uma alegoria muito bem feita ao fato de que na bandeira original há justamente a posição das estrelas do Cruzeiro do Sul na data da emancipação política do Paraná, 19 de dezembro de 1853.
Ora como culto à personalidade, ainda que de forma oblíqua, é algo próximo dos ritos orientais ou ainda da sabedoria popular sobre o destino com o surrado chavão do ''estava escrito nas estrelas''. O governador Roberto Requião é meio perseguido por essas fatalidades de itinerário: quando prefeito de Curitiba, cunhou os vales transportes, em dezenas de milhões, com o seu augusto nome, da mesma forma que também o fez com as manilhas, que levavam a sua assinatura, e colocadas embaixo da terra, esperando talvez a exploração futura de dedicados arqueólogos à procura de sinais civilizatórios, uma vez que nem a Pedra da Roseta e muito menos o Nó Górdio são nossos como a Petrobras ou a Copel.
MOEDA & MANILHA - Essa ''moeda'' indexada em tempo de fúria inflacionária, que valia como passe nos ônibus, foi questionada no andamento de campanhas eleitorais e muitos anos depois. Os ''requiões'', como eram chamadas como contrafação das rúpias, foram abolidos depois que a URBS percebeu que não dava mais para controlar as falsas que circulavam, em alguns casos, mais do que as verdadeiras. Algo remotamente parecido com a ''praga'' dos transgênicos pelo menos na perspectiva do nosso veemente governador.
Acho perfeitamente normal que governantes busquem criar símbolos para marcar a sua passagem como traço digital. Só que esses referenciais semióticos se tornam mais cultuados do que os ditados com a observância das regras de heráldica e como ganham a máxima das frequências na divulgação de documentos, mensagens e anúncios tornam aqueles de natureza oficial menos lembrados. No caso paranaense a questão é mais grave porque uma decisão do Supremo Tribunal Federal tornou inválida a mudança processada nos símbolos na gestão de Alvaro Dias e feita, sob o comando do jurista e professor Renê Dotti, por um grupo de trabalho com especialistas como Ernani Straube. Nós, que já somos tidos (embora eu ache isso mais uma contribuição à cultura ornamental) como ''sem identidade'', temos agravada a situação diante dessa circunstância: a harpia que estava de perfil, o que foi tido como bastardia pelos especialistas, agora ficou de frente e pareceu mais desengonçada; trocaram o lavrador, que aparecia com a sega à mão para o roçar, pelo semeador, o que pintava como mais construtivo e significante.
A PIADA PEDAGÓGICA - Além de tudo essa retirada do lavrador com o instrumento de trabalho à mão (sega ou alfanje, seja lá o que for) em favor do semeador fazia esquecer a anedota de Joffre Cabral Silva (aquele presidente atleticano que morreu em Londrina por causa de uma frango sofrido pelo goleiro Muca e que que lhe provocou o enfarte) de que o sujeito com o equipamento é um paranaense comum pronto a cortar a cabeça do primeiro que pretenda aparecer. O sucesso por aqui, conforme o desdobramento dessa lenda, é ofensa no caso dos sérios porque na fauna dos falsos e simulacros, mais numerosa, a galinhagem é livre e incontrolável. É só olhar com atenção e pronto e lá está o cordão dos nossos esforçados medalhões.





