LUIZ GERALDO MAZZA
Força do consumidor
Numa das muitas geadas, que arrasaram a cafeicultura paranaense, anos 50/60, uma associação de donas de casa dos ''esteites'', grande consumidor, veio até o Paraná para constatar os efeitos do flagelo climático e afinal autenticá-lo. Agora estamos vendo a China, que já provocou no ano passado, uma queda brutal nos preços da soja com a interdição de cargas em seus portos volta a agir a pretexto de regularizar a certificação do produto geneticamente modificado.
São dois exemplos de força do consumidor às vezes maior do que até mesmo a do produtor. Quando do primeiro choque do petróleo e com as ações abertas do cartel produtor um pensador e militante da esquerda americana, Michael Harrington, autor de ''A outra face da América'', em que desenvolvia estudos sobre a pobreza no país mais rico do mundo, imaginou até que com a Opep, cartel dos produtores, os industrializados do Primeiro Mundo poderiam sofrer o que ele considerava um colapso do capitalismo, profecia inteiramente errada. E esse testemunho ele deixou no livro ''O crepúsculo do capitalismo'' quando o que passou a vigorar, desgraçadamente, foi a aurora do ''imperialismo hegemônico'', mormente após a queda do Muro e suas sequelas.
CAFÉ E ''VALORIZAÇÃO'' - O Brasil conhece bem, por experiência própria, e isso com o café, do qual era o maior produtor mundial, que a capacidade de resistência do consumidor é bem maior. Assim um produto que não era originariamente nosso e que foi trazido por Palheta das Guianas para aqui aclimatar-se ficou condicionado ao consumo e que acabou nos impondo experiências drásticas como a da política de valorização e que consistia na queima de milhões de toneladas para equilibrar a dinâmica do mercado. Nos Estados Unidos, quando há superprodução de um determinado bem, adota-se o financiamento de fazer desaparecer o produto, tal qual fizemos por aqui com a erradicação dos cafeeiros antieconômicos e que se deu paradoxalmente quando o Paraná ganhou a presidência do IBC, Instituto Brasileiro do Café, com Leônidas Bório no governo Ney Braga.
RISCOS À VISTA - A China não é um parceiro comum e deu para percebê-lo na queda provocada nos preços da soja em todas as bolsas. Agora, além da conjuntura cambial bastante desfavorável, temos ainda uma safra excepcional nos ''esteites'' o que ampliará as dimensões da crise. Nos anos 2003 e 2004, especialmente neste, fomos bastante beneficiados pelas contingências internacionais que agora não parecem assim tão favoráveis. O dólar no período 2000/02 chegou ao pico de R$ 3,80 ao mesmo tempo em que houve a queda das safras norte-americana em 2003 (perda de 18% estimada em 14 milhões de toneladas) e a sul-americana em 2004 (essa de 12 milhões de toneladas). A quebra levantou o preço médio de 10 dólares por saca para mais de 20 dólares. Essa perspectiva, com fatores negativos, pode operar como uma ducha de água gelada no otimismo chapa branca.
BIZARRICE - No primeiro governo Requião, como se dá agora, um documento circulou no país com o título ''Há outro caminho'', que tinha entre os redatores o ex-vice governador do Rio, Rafael de Almeida Magalhães. Como dizia o poeta hispânico ''caminhante: não há caminho; o caminho se faz ao caminhar''.
AXIOMA - Cada um com sua utopia: Caymmi com Maracangalha, o poeta Manoel Bandeira com Pasárgada. Na nossa adolescência dois sonhos: um misterioso e nunca jamais visto ''bordel das normalistas'' e o poço dos lambaris amarelos.
FOLCLORE - Cabos eleitorais de primeira hora de Beto Richa até agora pelo menos não nomeados se dizem ''excluídos'' quando, na verdade, se imaginavam mais do que ''exclusivos''.





