Ingenuidade radical

  Se é insustentável o ideário que o governador Roberto Requião está avalizando, originado nas reflexões do economista Carlos Lessa, como a de o Brasil ligar-se mais em suas relações econômicas aos subdesenvolvidos da América do Sul e da África, não deixa de ser curioso o fato de Lula despender recursos enormes na ofensiva junto aos pobres (o Haiti é o paradigma básico em missão delicada e de extremo risco) ao cair na fantasia de uma promoção inócua com o perdão dessas dívidas. O economista e ex-ministro Mailson da Nóbrega mostrou recentemente que tais dívidas decorreram exatamente de uma ofensiva do presidente Geisel, também voltada para maior presença do Brasil, que fez os empréstimos que todos sabiam de dificílimo resgate e que ao lado da política nuclear independente, e que não era tanto assim como os fatos o demonstraram pela tecnologia fajuta adotada, sugeriam participação internacional.
AUTARQUIA - Como se percebe, as fantasias permeiam governos e situações. A autarquização da economia voltada ao próprio país ou a um conjunto regional de iguais na dependência e piores é um absurdo. Aliás há uma simetria entre essa visão e a de João Pedro Stédile, teórico mais agressivo do MST, que procura transformar o seu mundo, o seu universo de atuação, no fator dominante da economia, quando não passa de uma expressão ínfima, posto que necessária até para realçar a diversidade e indicar formas de reação dos chamados excluídos.
  Se de um lado isso mostra a capacidade de recriar utopias mais do que testadas como a do basismo agrário de um outro nos devolve ao isolamento radical dos ‘‘aparelhos’’ ideológicos dos anos 50 e 60, bem nutridos pela Guerra Fria, quando as pessoas aí engajadas ‘‘revogavam’’ a realidade asfixiante com as resoluções das plenárias que condenavam este ou aquele país como se isso tivesse efeitos no mundo concreto. (Lembro de uma assembléia de que participei no Centro Acadêmico Hugo Simas em que pleiteamos o indulto ao casal Julius e Ethel Rosemberg acusado de transferir informações nucleares à URSS em telegrama enviado ao presidente norte-americano. Generoso, bonito, sofrido, porque a ‘‘direita’’ fez de tudo para impedí-lo, inclusive cortando a energia do nosso anfiteatro de fantasias, mas sabidamente inútil, já que nem o Papa foi ouvido em seu pedido de clemência. Isso não impediu que vibrássemos e cantássemos a Internacional na madrugada fria de Curitiba, imantados pelo sereno e aquecidos pela luta alegórica, talvez reafirmando na prática o que Jean Paul Sartre dizia da vida ‘‘como uma paixão enlouquecida’’).
INGENUIDADE - Há ingenuidade tanto na forma como se pretende ofertar um modelo opcional à política econômica do país quanto nessa suposta aproximação internacional com países em situação pior do que a nossa em nome de uma presença geopolítica, sabidamente inútil, porque isso não nos dará um espaço no Conselho de Segurança da ONU ou nos fará um ator relevante no mundo globalizado. Há, porém, o lado positivo, aí decorrente de uma tradição do Itamarati e que teve momentos relevantes com Juscelino Kubitschek e agora mais recentenente com Fernando Henrique nas demandas junto à Organização Mundial do Comércio e instituições multilaterais como a OEA e a ONU. Lula dá continuidade a esse esforço. Ir ao Fórum Social de Porto Alegre e simultaneamente ao de Davos, como se pretende, é indicador de tolerância e de busca para que tais pólos se aproximem. Nunca, porém, garantia de que isso vai acontecer.
  Um dos maiores sociólogos do Brasil, Otávio Ianni, ao morrer, com toda a sua tradição de pensador e ator da esquerda, deixou o recado para Lula: o sinal para o Brasil é o da China e da Índia, inserção na globalização com aquela tonalidade de respeito ao interesse nacional. Outro rumo é delírio.

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