LUIZ GERALDO MAZZA
O que não se pode negar é que tanto Lula quanto Fernando Henrique são de origem esquerdista em termos brasileiros. Aliás, esclareça-se, que até José Sarney era assim enquadrável como integrante da Frente Parlamentar Nacionalista (nos anos 50 as contingências opunham esse bloco aos tidos como ''democratas'' e que defendiam a livre empresa e investimentos estrangeiros) e da ''bossa nova'' udenista. O nacionalismo era o fundamento de duas das mais importantes instituições do país: o ISEB, Instituto Superior de Estudos Brasileiros e a ESG, Escola Superior de Guerra. Em 64 a ESG venceu o ISEB, mas o nacionalismo, à época até justificável, ainda reinou.
Assim, pois, a esquerda brasileira, pelo que tem de mais significativo, chegou ao poder, uma oriunda do mundo das abstrações acadêmicas, do Cebrap, da inteligentzia paulista e outra do basismo obreiro e da renovação sindical. E quanto mais passa o tempo, o Lula se torna um FHC, não de macacão porque de há muito é ligado nos modelos Armani.
É difícil apontar qual deles é mais vaidoso e mais empolgado com o poder, o que reafirma o centro das decisões como uma área capaz de nivelar, por seu estranho magnetismo, pessoas de origens tão dissemelhantes. Às vezes dá até a impressão de que Lula, por seu empenho como capataz de interesses do FMI e do Consenso de Washington, fica levemente à direita de FHC, o que se nota no seu empenho quase agônico de mostrar-se fiel seguidor daquelas normas, mormente no que se refere ao câmbio, à luta contra a inflação e ao superávit primário.
O imaginário da esquerda brasileira, sustentado pela redução dos desníveis sociais e aumento do raio de autonomia do Estado brasileiro nas suas relações internacionais, ainda se mantém por aí como um referencial quase perdido, já que inviabilizado pelos comprometimentos do Brasil com os credores. Como não há como imaginar uma estratégia de ruptura com essa dependência, tão firmes são as tenazes que nos condicionam, caímos naquilo que FHC chamava, e com muita propriedade, de ''nhenhenhen'', o verbalismo inócuo dos delirantes, a atoarda acrobática dos oradores de comício e que se ajustava ao tempo da ''Guerra Fria'', incompatível com a sociedade militarmente hegemônica. E que não detém meios suasórios para conter, por exemplo, a paranóia americana no Iraque, o que seria inadmissível naqueles tempos em que órgãos multilaterais como a ONU e o seu Conselho de Segurança eram minimamente respeitados.
BIZARRICE Diferença entre Lula e FHC é apenas o ''aplomb'', nada mais.
AXIOMA Ou será que o Nãnãnã da Brahma é o Nhenhenhem em versão popular?
GLOSA Luis Mussi desejou 50% de votos de felicidades e boas festas ao seu colega Pisseti que respondeu com a mesma medida. ''Fair play'' é isso aí.
EPIGRAMA O maremoto temido nas praias do Paraná é o das cloacas.
FOLCLORE E o faquir moderno quer ficar mais de 50 dias sem comer, mas bebendo água. Se for da Sanepar ninguém suportará a soberba do governador que dirá ainda que o produto será muito melhor quando for dominado o Dominó. Se for da Ouro Fino, o slogan ''Beba e viva cem anos'' será levado ao pé da letra.
VINHETA Nos anos 50, o faquir Urbano ficava semanas sem comer guardado numa área de vidro aberta para o acompanhamento do público. O repórter Leopoldo Oberst, da revista ''O Cruzeiro'', também se submeteu a uma prova paralela de resistência do mesmo assunto, poder comer e beber. Dizem que, às vezes, o jornalista observava o faquir enquanto mastigava um cachorro quente.





