Natal é renascimento

A despeito do significado que o mundo cristão confere ao Natal não há como ocultar as origens pagãs da celebração de natureza mitraica e expressa numa exaltação ao Sol. Comemorava-se, então, o ''Natalis Invictis Solis'', uma referência, no hemisfério norte, à virada da estação e que está presente não apenas no decor da manjedoura humilde como também na fantasia do Papai Noel em seu trenó a surfar a neve e também o espaço sideral.
O culto ao sol leva a uma outra consequência observada por alguns teólogos: na oferta de presentes dos reis magos o Menino Jesus é olhado, a rigor, como um pequeno faraó, o que ratifica a marca digital de raíz. Como estamos numa civilização hedonística (a cultura do prazer, da sensualidade, do consumo) e altamente dessacralizante chegamos à heresia daquele presépio em que o craque Beckam aparece ao lado de Bush, dentre outros personagens, num enredo pop da comemoração, o que obviamente provocou protestos.
Falamos no caráter hedonístico do nosso tempo. O hedonismo tem uma acepção na filosofia e na epistemologia como a clássica de Epicuro, centrada na procura do prazer pelo exercício da virtude, e outra na economia, justamente para teorizar a questão básica do consumo, que sempre existiu independentemente de época e de estágio civilizatório.
Tentar uma cristianização radical do Natal é, apesar da intenção aceitável de remar contra a correnteza do materialismo, uma subversão que desconsidera a origem já referida na exaltação ao Sol. Também extremamente difícil tirar o aspecto mercantil e de explosão de consumo até porque é a alavanca máxima das vendas na compulsão de presentear familiares e amigos. Como não dá também para evitar que essa seja a marca de datas do calendário comercial como a das mães, dos pais, das noivas, dos namorados, nas quais o marketing se vale de um claro fundamento familiar e afetivo, extremamente espiritual, para o objetivo prosaico (um trocadilho com o Prozac iria bem nos fundamentos) do comércio.
MANIPULAÇÃO Da mesma forma que a Teologia da Libertação, hoje sem o alarde do passado recente, buscou politizar as comunidades eclesiais de base (e uma das suas sequelas, para o bem e para o mal, é o MST acima da lei e da ordem, ainda que sem assumir o que lhe é inerente no caráter revolucionário) já tivemos outras tentativas de aproveitamento dos valores natalinos para fins de proselitismo. Na fase mais assanhada do Estado Novo lembro de uma dessas incursões nacionaleiras de Getúlio Vargas, de caráter culturalista, ao reunir o maestro Haeckel Tavares, o dramaturgo Joraci Camargo (autor de ''Deus lhe pague'') e o cantor (o mais perfeito ''baixo'' do país) Edson Lopes que em excursão por todo o Brasil tentaram (imaginem a bobagem caricatural) trocar Papai Noel pelo Índio Velho como se isso remisse as culpas da civilização em relação aos índios.
O nacionalismo era um dos fundamentos não apenas do nazismo e do fascismo como em certos momentos também do bloco artificial de nações que formavam a União Soviética. Ele é onipresente nos sistemas fascistas da Espanha e também de Portugal no franco-salarismo. Obviamente o Índio Velho não pegou apesar do empenho da brilhante comitiva com jeitinho do teatro mambembe e da comédia de arte dos europeus a vagar por esse Brasil de dimensões continentais em busca de um objetivo artificial e de escasso efeito pedagógico.
MÍSTICA A Teologia da Libertação veio como decorrência do ''aggiornamento'' e abertura do pontificado de João XXIII, mas acabou concorrendo para o surgimento de corrente oposta que se afasta do ''temporal'' para o ''místico'' e é o que se vê hoje com os carismáticos. E o próprio Leonardo Boff também às voltas com o misticismo e a natureza (compromisso ecológico), o que para o capitalismo predatório passa a ser novamente revolucionário.

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