Virtude e virtualidade

Com a intervenção do DIEESE, Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos, agravou-se, sobremaneira, a situação criada, já no início da semana, durante a ''escolinha'', em torno dos números do emprego no Paraná. O hábito da praça, em tudo o que se relacione com o governo, é aumentar, de forma considerável, esses feitos. E agora como é escassa a safra de feitos diretos da administração estadual por não termos obras a creditar, predominando factóides (a tolice dos transgênicos, a inocuidade da reação ao pedágio), abusa-se do ''marketing''.
A rigor, mesmo que os números fossem favoráveis, e em termos nacionais o são, é artificioso atribuir a esta administração qualquer participação nesses feitos, pois, tirando as medidas fiscais adotadas por Heron Arzua, secretário da Fazenda, nada existe que possa justificar qualquer nexo causal com esses indicadores. Até o primeiro governo Requião poderia ter alguma influência, mas nunca o atual. Com as confusões que cria no Porto e na questão dos produtos geneticamente modificados a rigor mais atrapalha do que ajuda. Fez por exemplo alguma estrada ou tentou, ao menos, recuperá-la? Trouxe algum empreendimento que não decorra de protocolos de intenção anteriores?
Trata-se de um tique tradicional do Paraná esse do triunfalismo, apoiado, normalmente, na mídia interessada e cúmplice, até porque tais vinculações tornam impossível a prática de um jornalismo investigativo. Uma das mais remotas é aquela pregação do governo Paulo Pimentel em que se lutava, como utopia próxima, para fazer do Paraná a segunda unidade federativa do país. Era tão despropositada, ainda que válida como idéia-força, que passados mais de trinta anos daquela pregação não chegamos sequer a ocupar o primeiro lugar no ''ranking'' do sul do país. A rigor nem chegamos ao segundo lugar, pois se apurarmos os indicadores de renda interna e os cruzarmos com os de natureza social, acabaremos perdendo para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
BIZARRICE Como não há governos virtuosos sobram-nos os virtuais.
AXIOMA Nessa questão da gestão virtual Lula se parece com FHC e Roberto Requião com Jaime Lerner. Desligou a tv e o rádio tudo se volatiliza.
GLOSA É mais fácil cancelar um contrato, segundo pensa o governo Requião, do que tirar o time por não ter o que fazer. Nunca se viu na história do Paraná esse nível de ociosidade nervosa que não leva a lugar algum.
EPIGRAMA O afundamento de um barco que conduzia cestas básicas a pescadores, atingidos pelos efeitos da explosão do navio chileno, na Ponta da Cruz, perto da Ilha da Cotinga, é uma prova de que o Paraná só se safa dessa fase aziaga se chover água benta em todo o território estadual.
VINHETA Parece coisa planejada: bastou o governo da União emplacar as Parcerias Público Privadas no Congresso Nacional e a administração estadual abre um novo foco de atrito na questão dos contratos em obras delegadas, agora com a Rodonorte. Por sinal que a estrada para Apucarana está muito ruim.
SCAPS Se há tanta bronca diante do pedágio nas estradas por que o ''silêncio obsequioso'' no caso específico do ''pedágio'' em verbas de propaganda, afinal denunciado no curso da troca de acusações entre Mussi e Pisseti?
FOLCLORE Relíquia, em linguagem religiosa, normalmente se refere aos restos de algum santo. E foi com essa expectativa, em visita a um seminário de gente da esquerda (Teologia da Libertação), que fiquei ansioso quando seminaristas me anunciaram, emocionados, que me mostrariam uma relíquia. Guardada num escrínio com bordas de veludo lá estava a orelha fragmentada do ex-ministro Flavio Lacerda. Era apenas um pedaço do monumento derrubado no cerco da Reitoria.

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