LUIZ GERALDO MAZZA
Vacina contra desníveis
Quando Lerner deflagrou o seu projeto de expansão industrial, lastreado nas montadoras, em várias oportunidades alertei para os riscos, determinados por fatores locacionais favoráveis, de uma concentração no eixo Curitiba-Ponta Grossa. A preocupação óbvia era a de que não se acirrassem os desníveis regionais internos. Percebeu-se claramente que tanto a Renault como a Audi-Volks não tinham capacidade geradora de empregos, como se anunciara de forma enfática, superdimensionando empregos diretos e indiretos, até porque essas unidades de ponta apostam na automação e na robótica e são mais agregadoras de tecnologia e intensificadoras de capital.
Passados os contratempos que marcaram a vinda das montadoras, com atos de resistência de uma oposição burra, parecida com aquela de Porto Alegre que expulsou de Guaíba uma unidade depois transferida a Bahia (e que ajudou a derrotar o PT no último pleito estadual e na sequência no municipal), dá para perceber que justamente a maior contribuição na geração de empregos no Paraná vem do interior. Em levantamento recente, de janeiro a outubro, as indústrias criaram 60.259 postos de trabalho, dos quais 75% no interior. Essa tem sido uma tendência que gera um outro problema: as pressões sociais se tornam mais intensas na Região Metropolitana que oferta espaços para a mão de obra não qualificada, ainda mais quando a dinâmica da construção civil padece com um momento de crise, como se dá neste preciso momento.
MIGRAÇÕES O inchaço das regiões metropolitanas se dá por automatismo em função de fenômenos de difícil controle como o da migração campo-cidade. Algumas cidades do interior têm sabido desenvolver vocações apropriadas como Cianorte com o vestuário, Imbituva com a atividade têxtil, Arapongas com móveis, Apucarana com bonés e assim por diante. Embora isso não seja suficiente para garantir o pleno emprego dos fatores de produção há melhoras significativas no padrão de vida da comunidade.
Infelizmente, apesar de todo apoio que se concede aos projetos de reforma agrária, esses dão respostas débeis em termos de desenvolvimento até porque padecem de anomalias congênitas como a circunstância de perto de 40% dos sem terra não terem a mínima vocação agrícola, recrutados que foram na periferia das cidades na condição de desempregados, e também pelo fato de mais de 35% dos assentados venderem as suas propriedades. Se esse setor desse uma resposta, em termos de crescimento, como ocorre nos demais teríamos por certo um cenário bem mais expressivo. Aliás a reforma agrária no Brasil é voltada mais para uma questão social (evitar a sobrecarga de desempregados nos centros urbanos) do que econômica, o que não impede que se meça o peso específico de sua contribuição ao conjunto do país e que não se restrinja ao dado puramente político, no qual tem a maior significância.
BIZARRICE O governador acredita, como se fosse o profeta de si mesmo, nas fantasias que engendra como a da ruptura dos contratos, a luta contra os transgênicos e a das estatísticas triunfalistas. Puxou a orelha do Ipardes ante o fato de os números de empregos criados não corresponderem aqueles que a área da Comunicação vinha divulgando. Se conhecesse psicologia como o seu irmão, eventualmente portuário, saberia distinguir a emoção de um setor oposta ao esforço de racionalidade do outro. Conhecesse história recente do Paraná saberia que, mesmo quanto tínhamos governo capaz de transformar a realidade, houve uma previsão para o Censo de 1980 pela Copel de que chegaríamos a 10 milhões de habitantes enquanto o Ipardes dava 7 milhões e 650 mil, mais ou menos o apurado. A Copel, autora da previsão inflada, detinha poder hegemônico na máquina e quebrou a cara. Como ensinava Nietzche, ao dionisíaco se opõe o apolíneo. Requião, que gostava de balê quando jovem, está mais para Dionísio.
Saudemos, pois, com clavicórdios e flautas, as notícias triunfais e irreais.





