LUIZ GERALDO MAZZA
O país da panacéia
Um das marcas brasileiras é a da crença da onda da moda como salvacionista. O monetarismo é uma delas como agora surge, em versão oposta, a do que chamam genericamente de desenvolvimentismo. Eleições diretas foram uma dessas indicações e que se tornaram paradigmáticas com a tramitação sofrida da emenda Dante de Oliveira. Ela foi derrotada e os que a apoiavam entendiam que botando no placar nas ruas os nomes do que votaram contra ela haveria uma execração. Aqui no Paraná muitos dos principais adeptos das diretas foram derrotados e um grande número dos adversários foram eleitos.
Como as diretas não vieram, depois de mobilizações maravilhosas, aproveitou-se o residual emocional para que Tancredo Neves fosse eleito na indireta. Daí a esperança passou a ser a ''Nova República'' que não é nova e até tem pouco de república. Tancredo morre e Sarney (originário dessa coisa à brasileira que é a esquerda nacionalista como membro da ''bossa nova'' da UDN) assume e aí veio a solução mágica do Plano Cruzado que elegeria todos os governadores do PMDB e que daria com os burros nágua. Seguiu-se a enganação do calote da Dívida que nos colocou muito mal no cenário internacional como já ocorrera com Juscelino e que nos dois casos ganhou a aura de ''salvação''.
A CONSTITUINTE Depois tivemos outro momento mágico, em 1988, com a Constituinte, uma apoteose de oba oba no maior espetáculo de lobística institucional e que transformou a Carta Magna num documento que condenaria, em breve, à perda da governabilidade, tantas foram as emendas de lá para cá que os demiurgos de plantão já imaginaram um novo carnaval cívico para que tivéssemos, então, uma Constituição limpa como o primeiro dia da criação.
Só um governo que não era de esquerda, pelo menos na origem, tivemos nesse tempo todo e foi o de Collor que deu uma grande contribuição, o que irritou os pândegos do nacionalismo e da economia autárquica, na liberação das importações e no ataque aos mercados cativos do capitalismo sem risco. Vieram então governos mais nitidamente de esquerda que foram os de FHC e agora o de Lula, quase irmãos siameses na obediência aos figurinos do FMI e do Consenso de Washington. A vitória de Lula despertou esperança demais por seu histórico de militante sindical, de nordestino pobre (Sarney é rico) e não poucos o viam como reencarnação de Antonio Conselheiro. Era a panacéia viva.
DESENTERRANDO UTOPIAS Seus adversários - entre eles o nosso governador, Requião, brandindo outras fantasias que não deram certo como a do ''Estado provedor'', hoje sepultado, pelo menos nas circunstâncias atuais, e o realejo nacionalista e terapias dos anos 50 também acreditam que o suposto antiparadigma que representam seria a medicação polivalente que nos libertaria de todos os males. Lula, atento, diz que encontrou o país numa Unidade de Terapia Intensiva e que agora o paciente, depois de ir para um apartamento, ganhou alta e está pelo menos andando. Dá para perceber aí como a metáfora ajuda a alimentar o imaginário de tanta gente. Chegamos ao fim do ano com notícias animadoras e é de lembrar-se da leitura que Médici, o presidente mais hostilizado da ditadura, fazia desse contexto ao dizer que ''a economia vai bem, mas o povo vai mal''. Emendava a observação sobre indicadores com a ironia de que mais valia a Felicidade Nacional Bruta do que tanta reverência ao Produto Interno Bruto.
A panacéia é velha companheira do Brasil: assim se deu com a Independência, a República (a Carta de 1891 é um decalque da americana sem a sua concisão), antes disso a Abolição, e nas rebeldias como as sabinadas, balaiadas, Canudos e sua versão meridional com o Contestado, Coluna Prestes, Revolução de 30. Os fatos são revolucionários: o feudalismo do campo foi afastado com a inserção capitalista, tardia, mas vigorosa. Sobrevivemos às terapias miraculosas.





