Empate da impaciência

Já me referi, mais de uma vez, ao hábito amazônico de os seringueiros, ao verem áreas de extração, derrubadas por projetos pecuários, declararem o que chamam de ''empate''. Segue-se, como num auto popular, a oratória, um lado declarando que o faz para proteger a sua subsistência, argumento igualmente usado pelos peões e empreiteiros que fazem a derrubada. É uma ''instituição'' claramente alternativa e que ajuda o diálogo, o convívio, com a visão de que esse ''empate'' tem o sentido exato e função daquele da linha de pesca.
Ontem, tivemos no contorno rodoviário da Grande Curitiba, mais um bloqueio determinado por moradores da Borda de Campo que se dizem prejudicados pela estrada e exigem remodelações como passagem subterrâena e passarelas. Um dos absurdos, além do fato em si pela carga de intolerância e de desrespeito aos direitos dos demais usuários, e consequentemente da maioria, foi o de que os manifestantes achavam indispensável que o levantamento do bloqueio só se desse depois que houvesse a presença do canal de tv de maior audiência. Como se percebe a vassalagem à sociedade do espetáculo não tem limites e o pior é que a Polícia Rodoviária Federal insiste em levar o diálogo à exaustão nesse casos como se a diplomacia estivesse a serviço do manifestante e não do usuário.
Todo o quadro de anomia (ausência de referenciais legais) que marca o país decorre dessa leniência e dessa passividade bovina diante das infringência das leis como se vê nas invasões de terras e áreas urbanas e também de repartições públicas. Quando a PM, cumprindo o seu dever, impediu que os professores em passeata, em 1988, invadissem o Palácio Iguaçu e teve que usar meios fortes para a dissuasão, percebeu-se a postura maliciosa dos políticos jogando toda a responsabilidade nos milicianos como ocorreria depois, no governo Requião, o caso da morte de três policiais em Campo Bonito e com a retaliação em cima do líder sem-terra, o Teixeirinha, humilhado, execrado e morto. Como se vê, é no seio do poder que essas coisas encontram seus nutrientes.
Mas se admitimos que os bloqueadores de estradas agem em nome do direito não podemos estranhar que o outro lado, o usuário, resolva tentar à sua maneira a remoção do obstáculo. Isso quase aconteceu ontem quando alguns caminhoneiros, já irritados com a demora, começaram a se organizar, com paus e pedras, para enfrentar seus oponentes. Felizmente não houve o choque, mas o fato deixou uma lição de como se deve não apenas ampliar o ''empate'' dos grupos em conflito e criar formas operativas de conter esse tipo de manifestação, que tende a se transformar numa rotina irresponsável em todo o país.
Aqui até o governo já usou dessa técnica, no andamento da sua disputa sobre o pedágio, mobilizando caminhoneiros e sem-terra para o bloqueio e a depredação das concessionárias. É, portanto, uma cultura. Só que estradas bloqueadas podem gerar tragédias e massacres estúpidos como o de Eldorado de Carajás.
BIZARRICE Que tal colocar numa bingueira bolas com os nomes de Mussi e Pisseti para um sorteio sensacional e ver quem sai primeiro?
AXIOMA O governo é teimoso: perdeu todas sobre o caso do pacto acionário da Sanepar com o grupo Dominó, mas insiste que ganhou. Assim fez com o pedágio o tempo todo até perceber que a única saída seria aceitar o contrato e baixar a tarifa para discutir a questão pericial em juízo. Enfim ganhar tempo, mas quem vai perder tempo e dinheiro lá na frente é o contribuinte.
FOLCLORE Se Mussi, com uma emissora de TV a cabo, de rala audiência, queria um aumento de subvenção de R$ 150 mil (para lá de bom pela mídia técnica) para R$ 500 mil toda a reação de Pisseti seria válida, inclusive xingamento. Já se não estava gozando e pediu a metade, como se insinua, ao governador não resta outra saída que não uma acareação e o cartão vermelho para um ou os dois.

mockup