A profecia de Marx

Quando elaborou, junto com Engels, o Manifesto Comunista, Marx descrevia com muita precisão mais um momento de globalização e da perda dos referenciais nacionais e alertava para a necessidade de as classes obreiras se unirem numa perspectiva revolucionária para exercer o seu papel, via luta de classes, naquele contexto histórico. Era um apelo internacionalista.
Antes de morrer, o sociólogo Otavio Ianni fez um alertamento dirigido a Lula para que não perdesse o Brasil, por suas dimensões continentais, a chance de um papel menos passivo na globalização e indicava como paradigmas a Índia e a China que não entram na cantilena regressiva da Igreja e dos basismos e tomam posições ativas de inserção no processo global.
Na Itália, embora muitos dêem o marxismo como morto, temos, neste momento, a expressão de como num mundo globalizado, consumista, capitalista e apoiado em esquema militar hegemônico se pode encontrar caminhos para a luta de classes com a greve geral que não pretende, o que seria babaquice, derrubar o governo e sim mexer no orçamento para garantir investimentos públicos. Como se vê há uma perspectiva mais educada de revolução, sem aquele doce tom anárquico, tão caro às tradições italianas, que não deixa de ser radical, democrática e aceitando as regras do jogo do regime aberto.
Não dá para comparar essas manifestações com os discursos inócuos de Requião que vê o fantasma neoliberal em tudo, repetindo chavões da Igreja e basismo, centrados em slogans e arquétipos, despojados de um contexto de doutrina. Tanto os norte-americanos como europeus traduziriam na cabeça maniqueísta desses equivocados formas neoliberais, só que nenhum deles têm o tal do Estado Mínimo que os radicais (Bobbio os chama de ''liberais liberistas'' que estariam no século 21 a reproduzir o ''laissez-faire, laissez-passer'' dos fisiocratas de Quesnay no ''deixar fazer, deixar passar'') tentam impor. Hobbsbawn, um dos mais articulados marxistas do século, que acha o nacionalismo incompatível com a esquerda, diz que Margareth Tatcher foi muito além dos figurinos comuns dessa reconstrução neoliberal e essa especificidade ele destacou em sua obra.
Essa suposta oposição a Lula em primeiro lugar desconsidera a ausência de espaços de manobra para o Brasil em função de sua dívida e da negociação permanente com os credores e não apresenta uma alternativa ainda que caindo no campo das escolas dizendo-se anti-monetarista ou desenvolvimentista, o que não passa de um rótulo, já que não se indica a forma de operacionalizar essa opção, o que é típico dos descompromissados com a realidade e que entregam ao delírio da ideologia a saída esperada e que nunca vem.
Não dá para comparar essa greve da Itália com os murmúrios nacionais contra o pragmatismo de Lula, na mesma esteira de FHC, que agora deu para criticá-lo, ou as passeatas dos ''sem'', que poderia ser dos ''cem'', como forma de derrubar a equipe econômica.
O PEDÁGIO Requião não levou a sério o ''pedágio'' interno denunciado por Mussi contra Pisseti (acho vaga a insinuação, mas de qualquer forma merecedora de algo mais do que o silêncio obsequioso imposto pelo governador), mas resolveu aceitar o outro, das estradas, no momento em que baixou (com que critérios é mistério maior do que o sumiço da soja no Porto e o quanto se perdeu nas inversões no Banco Santos) a tabela solicitada pelas concessionárias. É mais uma etapa do cabo de guerra interminável em que a ABCR tem levado a melhor. Vamos torcer para que desta vez emplaque a baixa em todos os pedágios.
MARIA LOUCA A próxima série da Globo trata do feito épico da construção da ferrovia Madeira-Mamoré. O título é ''Mad Maria'', Maria Louca, que era como, em seu animismo, as pessoas viam a ''maria fumaça'' transpondo a selva.

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