O provincianismo

A ida do governador e comitiva a Nova York para a homenagem da Bolsa aos 50 anos da Copel pelo deslumbramento que a marcou, incluindo aí os discursos e entrevistas de Requião sobre o risco que lhe leva o nome, é um paradigma de provincianismo. Ir ao centro da Aldeia Global para falar das disputas dos aldeões em torno de como deva ser gerida ou leiloada, como pretendiam Lerner e o modelo energético do governo brasileiro, a estatal é colocar as pendências do burgo acima da expressão que a própria empresa ganhou em nível nacional e que o deve a uma sequência histórica e não apenas a uma pessoa ou governo.
Quem acabou dando maior repercussão à revista ''Época'' que tratou do assunto na base da denúncia de mordomia foi o próprio governo ontem na CBN-Curitiba, pois a análise do assunto, comedida, não instigava tanto a curiosidade do público como a participação de três figuras do governo, os secretários Luis Cláudio Romanelli e Benedito Pires e, no final, pelo próprio governador que acusou a rádio de ser provinciana porque teria repercutido a matéria. Ora, o texto não estava na internet e essa divulgação, feita mais pelo governo do que pelos repórteres e comentaristas, acabou levando o público a adquirir a revista, que esgotou nas bancas, para conhecer o conteúdo da reportagem.
A mania persecutória é permanente: a ''Época'' seria integrante de esquema para insistir no ''risco Requião'' e combater as posições nacionalistas do governador. Tanto a revista da ''Globo'' como o ''Estadão'' foram citados como integrantes dessa banda ''neoliberal''. Da mesma forma como o outro Requião, o Eduardo, o do Porto, se diz em combate permanente contra interesses forâneos, como os da Monsanto, e que tentam dominar o terminal.
TUDO ZERADO Quando Requião entrou de sola na CBN-Curitiba para combater a publicação da ''Época'' ficou visível o diversionismo: não pretendia enfocar as outras divididas como a do seu irmão, Eduardo, no Porto e na possível disputa, nutrida a boatos e especulações, entre Luis Mussi e Pisseti. Apesar da gravidade das acusações feitas, decidiu deixar tudo como estava, é lógico, à base de recomendações para que o entrevero verbal tivesse fim.
Ocorre que essa não é a forma ideal de ''metabolizar'' a questão por mais fantasiosa e prenhe de exageros que esteja. Não apenas a Assembléia pode convocar os secretários, incluindo a única vítima até aqui, o advogado Ogier Buch, para uma acareação e amplo esclarecimento, como também o Ministério Público poderia tomar a iniciativa, a qualquer tempo, de apurar a procedência das acusações de Mussi contra Pisseti. O silêncio obsequioso, desejado pelo governador, estaria sob risco, embora a acomodação tradicional da mídia.
BIZARRICE O ''site'' do Guilhobel (Gazeta de Novo) tocava ontem, de forma ininterrupta, o ''New York, New York'' na voz de Sinatra. Sugestão sutil de crítica à viagem à Meca do Capitalismo (como disse ontem o Natálio Stica), lembrando a perfídia que o PMDB fez com o casamento da filha de Lerner em festa paga pelos convidados.
AXIOMA Há governos que dispensam oposição por desnecessária.
GLOSA O deputado Plauto Miró Guimarães fez um discurso belíssmo sobre a inutilidade das viagens governamentais. Ao fim, deu o nome do autor da catilinária, a fala de Nereu Moura sobre as viagens de Lerner.
FOLCLORE Mário Covas, pai, corretor de café, adorava o filho, que sonhava em vê-lo presidente da República. Era tão extremo em relação ao rebento (que viria a ser prefeito e governador de São Paulo, senador) que um dia pediu ao Marinósio Filho, que tinha um jornal semanal em Londrina, que publicasse a foto e os feitos do filho já brilhando no colegial.
CROMO Santa e freira de saia lascada, aí só num filme de Federico Felini.

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