Conflitar sem desagregar

Estudos recentes indicando que o PT aumentou suas parcerias com a direita e reduziu coligações à esquerda apenas confirmam o grau de imobilismo do país diante daqueles que nos monitoram, Consenso de Washington, Banco Mundial e FMI, contra os quais bravatas e discursos candentes se mostram impotentes.
Na própria composição do governo é visível que uma certa dosagem de conflito é interessante: isso já acontecia na gestão de Fernando Henrique, quando Serra era apontado como ''desenvolvimentista'' diante do monetarismo de Malan. No governo Lula, além das reações do vice-presidente contra a política de juros, hoje envolvido em área bem mais sensível no Ministério da Defesa, a figura que mais se destacava contra a linha do governo era Carlos Lessa como presidente do BNDES, agora afastado.
Nas celebrações da morte de Celso Furtado, o brasileiro que foi mais fundo na luta pelo desenvolvimento, como genuíno criador de organismo que visavam reduzir desníveis regionais, a perda dessa tonalidade à esquerda ou mesmo voltada para a definição do interesse nacional voltou a ser lamentada. Se o governo Lula conseguir junto ao FMI, de quem tem sido seguidor aplicadíssimo, a proteção que deseja para investimentos em infra-estrutura (e aí entrariam aquelas das Parcerias Público Privadas, bem ao gosto dos que nos monitoram) teremos um ganho excepcional na medida em que se aposta e muito nos efeitos multiplicadores dessa mobilização que abrangeria portos, aeroportos, usinas hidrelétricas e termelétricas, hidrovias, ferrovias, rodovias e que certamente criaria um cenário de dinamismo interno, capaz de recuperar a imagem até aqui frágil de um governo que surgiu com tantas perspectivas de mudança e que se mostra, de certa forma, estagnado e incapaz de dar respostas efetivas aos desafios.
O lamento dos autênticos com a linha pragmática que o PT no governo se viu impelido a seguir, por falta de alternativas concretas, o que já ocorria com o seu antecessor, também originário do que se chama de esquerda brasileira, é normal como também a defecção de quadros mais radicais como Luciana Genro, Babá e a senadora Heloísa Helena que tentam montar um novo partido e que terá notórias dificuldades de superar a cláusula de barreira em 2006. A existência dessas pessoas, por mais distantes que possam parecer da realidade brasileira, é a confirmação de que, embora limitados, ainda existem espaços para a utopia.
Não deve surpreender também a circunstância de haver mais gente pragmática do que idealística com maior apego ao poder do que ao compromisso histórico.

BIZARRICE Concessionárias que fizeram acordos com o governo, Caminhos do Paraná e Rodovia das Cataratas, pedem 28% e 45% de reajuste. Se cada acordo der esse tipo de resultado será um pandemônio.

AXIOMA Nem o pregão de ''Noviorque'', em relação à Copel, pode ter os efeitos esperados, depois da perda de recursos do fundo de pensão da empresa.

GLOSA Diretório nacional do PT aprovou resolução em que cobra do governo Lula a recuperação real do salário mínimo para 2005 e política de juros menores. É a confissão de que o partido não está no poder.

EPIGRAMA Interlocutor do Paraná em Brasília era Carlos Lessa, do BNDES. Requião evitou a sua queda o quanto deu. Agora esse papel será do ministro da Articulação Política, Aldo Rebelo.

FOLCLORE Duas ocorrências no estúdio da CBN Curitiba: numa ocasião um mini raio entrou por um janela e saiu por outra e, em outro momento, um canário também repetiu o itinerário do visitante indesejado.

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