LUIZ GERALDO MAZZA
Da baía limpa à suja
Dois momentos demagógicos em nossa história recente que dão bem a idéia de como se trata a questão seríssima da ecologia: na gestão Lerner lançou-se o tal de ''baía limpa'' que consistia em dar salário mínimo e cesta básica para caiçaras que saíssem por aí a catar plástico das águas, em muitos casos bem mais frequentes do que peixes, e agora na de Requião, que também se diz um devoto da causa ambiental, tivemos essa catástrofe no Porto de Paranaguá que botou em risco até mesmo o complexo lagunar pós-Superagui, alvo de convênio do governo Richa com o paulista Montoro, estuário ora sob ameaça.
O ''baía limpa'' era uma empulhação, meramente publicitária, bem na linha desses parques que Lerner e seus sucessores montaram em Curitiba e que se acertam a vazão de alguns rios como o Iguaçu e seus afluentes, não resolvem a questão básica que é a qualidade dessas águas. A moldura prevalece sobre a questão substancial, embora se deva reconhecer que a política de adensamento de áreas verdes é válida, ainda que insuficiente. Já o ''baía suja'', que no momento estamos enfrentando sem saber até quando e onde irão os seus efeitos, embora dependa de perícias para apurar culpas reais, é algo simpétrico à desídia que marca o funcionamento do terminal portuário e que não se trata de problema apenas do governo atual, mas decorrente de uma cultura de acomodação.
CAUTELAS DESPREZADAS Não é crível que operações de embarque e desembarque de combustíveis não sejam regidas por normas rigorosas de prevenção que constam, inclusive, de códigos internacionais da especialidade: a existência de bóias de contenção nessa rotina, mesmo que a hipótese de acidentes seja remota, é uma dessas exigências e que entram, inclusive, no custo desses trabalhos que obviamente são remunerados. Ao lado dessa exigência há ainda a das brigadas emergenciais para o caso de acidentes, sejam de explosões (e elas são comuns, pois no primeiro governo Requião houve a do silão, jamais explicitada), de incêndio ou de acidentes naturais. Um porto que vive, na época da exportação, com a saturação de navios ao largo deve ter um mínimo de cautelas preventivas até porque tem sido alvo frequente de ocorrências, como a do derramamento de óleo por um navio da Petrobras, o abalroamento do ''pier'' dessa mesma estatal e que ficou longo tempo sem reparos, o inexplicável aparecimento e desaparecimento recente de manchas de combustível em todo o entorno portuário e, por fim, a catástrofe que está aí a ajustar-se a um cenário visado em recente relatório das enormes deficiências do terminal feito pela Antac, Agência Nacional de Transportes Acquaviários.
TECNOFOBIA Os políticos sempre quiseram tocar o Porto ao seu estilo evitando por exemplo a aproximação de instituições ligadas à tecnologia e à ciência, daí a extrema dificuldade de o terminal ajustar-se com o Centro de Estudos do Mar, Simepar e congêneres, pela ''leitura'' diferenciada que fariam dos problemas. Há uma aberta hostilidade desses setores a dirigentes com um mínimo de formação técnica. Dava para percebê-lo no governo anterior com Osiris Guimarães que tinha no currículo a condição de um dos maiores especialistas do Brasil em corredores de exportação.
A preocupação de Eduardo Requião, o dirigente atual, em afastar do Porto qualquer sentido de culpa é, a um só tempo, a reação do psicanalista de vocação e do político-administrador emergencial. Não deve ter igualmente, como seu próprio irmão mais velho e governador, qualquer culpa, remotamente que seja, também nas derrotas eleitorais de Paranaguá e alhures.





