Porto inseguro

Se já havia motivos de sobra de preocupação relativamente à imagem do Porto de Paranaguá, por deficiências estruturais e de gestão, com essa tragédia da explosão do navio chileno numa área delicada como a dos inflamáveis torna-se indispensável aprofundar as investigações da CPI para detectar o nível de vulnerabilidade do terminal. Normas internacionais, a que está subordinado o Porto e que não são seguidas, como a inexistência em número e qualidade de brigadas aptas a atuar em desastres naturais, emanação de gases e incêndio revelam a margem de riscos nada desprezíveis.
Além de acidentes recentes como o de um barco, a serviço da Petrobras, e que assinalou o mais grave acidente ambiental com o derramamento de nafta na baía, tivemos a explosão do silão no primeiro governo Requião e lá pelos anos 40 um incêndio que parecia interminável e que durou mais de uma semana. Ora esses antecedentes e mais o misterioso aparecimento de mancha de óleo e que também, sem explicação plausível, teve a dispersão do material não explicada, já seriam suficientes para justificar cautelas especiais. Ao revés o que ocorreu foi o contrário: cada vez mais se acentuaram essas deficiências já relatadas pela Agência Nacional de Transportes Acquaviários, ANTAC, isso sem falar nos recentes e candentes depoimentos de uma comissão parlamentar federal que esteve inspecionando o complexo portuário.
A hipertrofia física do Porto é de tal ordem que se torna hoje impossível a intervenção de Plano Diretor que permita, o quanto possível, a separação das malhas urbana e portuária, como se dá, por exemplo, em Itajaí (SC). O terminal tem sustentado, de forma plástica, a sequência dos miniciclos da economia: no início com mate e madeira, depois com café e a consequente ocupação de vastas áreas da cidade com o armazenamento a serviço do IBC, um cartório da época e mais tarde com granéis líquidos e sólidos. Paranaguá esteve ameaçada de virar um pandemônio em termos de dispersão de contêineres, o que foi suavizado com o melhor terminal da especialidade por particulares, alvo de trombadas do governo Requião em sua ânsia, nem sempre justificável, de romper contratos.
Recentemente a cidade de Paranaguá, trabalhadores e operadores fizeram uma ''parede'' contra a gestão portuária e que teve reflexos claros na derrota do candidato oficial, e que respondera pela administração técnica, nas eleições municipais. O resultado foi evidente para rejeitar sofismas com as urnas ratificando o movimento de resistência da comunidade. Se a eleição tem sentido pedagógico, o mesmo se dá com as lamentáveis ocorrências e desastres no Porto. É indispensável ir a fundo nas apurações e também na indicação de medidas corretivas, umas de curto e médio prazos, outras de cronograma longo, tanto num caso como no outro respondendo por valores permanentes do Paraná.
BIZARRICE O fundo de pensão da Copel, alvo de investigação da Kroll e que registrou anomalias, conforme reportagens desta Folha, volta a ser abordado em função de aplicações feitas no Banco Santos, sob intervenção. Transferência de fundos de um banco sólido, o Itaú, sucedâneo aqui do Banestado, a uma organização menor e com prejuízos certos no pagamento da CPMF marcam a tramitação. Imaginem se isso tivesse sido feito no governo Lerner e com o Requião e o PT na oposição.
FOLCLORE O governo paranaense tem seu lado cartesiano e lógico na figura de Heron Arzua. Para descompensar, na forma como Nietzsche dividia comportamentos, tem mais dionisíacos do que apolíneos. Arzua mostrava na escolinha que um dos prejuízos ao desenvolvimento do Paraná têm sido os questionamentos exagerados de ordem ecológica. Aí Requião interveio para dizer que o meio ambiente é valor mais alto. Só que as manchas de óleo entram e saem em Paranaguá sem que ninguém as explique. E nas vísceras de peixes de fundo nas represas do Iguaçu têm sido constatada a presença de metais pesados como mercúrio. E daí?

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