LUIZ GERALDO MAZZA
Um papel missionário
Dos 56 anos que esta Folha celebrou ontem, em pelo menos 23 estive presente. No fim dos anos 60, os que respondiam processo militar em função do golpe e que ainda sofreram a aplicação do Ato Institucional tinham extrema dificuldade de obter emprego como jornalista. E foi nessas condições que tive a abertura que me foi proporcionada não apenas por este jornal como também pela revista maringaense Novo Paraná, de Aristeu Brandespin, e na seqüência, pela TV Paranaense Canal 12.
Os contatos com o Norte me levaram à convicção de que mais do que a unidade física do Paraná, que avançara muito no governo Ney Braga com o ataque maciço a obras de infra-estrutura, era indispensável um esforço deliberado para que visássemos a integração também no plano cultural. Visível a circunstância de que o nosso Paraná se constituía num mosaico de três áreas distintas em termos de processo civilizatório, conforme o mestre Rui Wachowski, prelecionara: o sul tradicional, o norte cafeeiro (já aquele tempo em marcha para a inevitável transformação) e o oeste-sudoeste.
O CALÇADÃO - Pela força capilar da Folha de Londrina e com mais ênfase no interior e sua circulação em áreas que formavam opinião na Região Metropolitana tínhamos uma tribuna para a nossa cooperação nessa busca de unidade na diversidade. A sucursal de Curitiba, que teve a comandá-la algumas expressões do jornalismo regional como Ubaldo Siqueira e Hugo Santana, e nacional, como Hélio Teixeira, fazia um trabalho doutrinal nesse aspecto e até mesmo naqueles documentários institucionais (eles me ensinaram a divisar uma relativa dignidade naquilo que olhávamos com desdém na matéria paga), dos quais também me ocupava.
Quando o então prefeito Jaime Lerner, por exemplo, decidiu fazer o calçadão e com o propósito declarado de entregar o espaço ao monopólio do pedestre inevitável foi a guerra curitibana contra a iniciativa partida de lojistas que temiam a queda de movimento. Não havia um institucional, uma peça publicitária, para defender o projeto e escrevi um artigo em defesa de Lerner e do seu colega de escritório de arquitetura, que assumira o Detran, e que foi transcrito como matéria comercial na primeira página de todos os jornais curitibanos. Esse episódio, que não foi lembrado nas comemorações dos 30 anos do calçadão por parte dos órgãos municipais, nada rendeu à Folha e Ubaldo Siqueira, o chefe da sucursal, ironizava que demos matéria-prima para os outros, isso é a renda comercial.
UMA PONTE - Tínhamos naquele caso, como na rotina das nossas coberturas, um patrimônio que crescia em prestígio e respeitabilidade, o que nos habilitava a sustentar a bandeira da integração cultural. Aliás, se há uma área em que ainda existe essa ilha é a da cultura e que numa certa medida até favorece o conjunto por manter uma emulação inteligente entre os dois pólos. Domingos Pelegrini, por exemplo, fazia exercícios literários em forma de reportagem como naquela metáfora estabelecida em cima dos trilhos da Estrada de Ferro Central do Paraná. Rosirene Gemael, Jacques Brand e Carlos Drummond faziam essa ponte no Caderno 2 com o pessoal do norte e assim por diante.
Às vezes, os atritos entre as ilhas aconteciam como quando a incrível Joana Lopes veio cobrir a reinauguração do Guairão pelo presidente Geisel com a peça Terra de todas as gentes, do jornalista Adherbal Fortes, e ela mandou bala no espetáculo em duas páginas com críticas arrasadoras, nada comuns nos hábitos metropolitanos.
Essa ponte necessária não poderia implicar em condescendência como, aliás, ao longo de todo o tempo, tentei exercer na crítica política, artística, econômica, comportamental, sempre com humor. Como quando provoquei Milanez e seus sobrinhos Macarini, ao tirar sarro da hipótese de que um dos astronautas fosse de Santa Catarina, chamando-o alegremente de catarinauta.





