Perda da classe média

A periferia oposta ao centro. Este o diagrama das oposições urbanas, aqui ou em Caixa Prego. O rigor maniqueísta que marcou esse divisor nas recentes disputas eleitorais mostrou a mobilidade havida no eleitorado petista que era de classe média média e média alta intelectualizada, como se viu na votação de Ângelo Vanhoni contra Cassio Taniguchi em 2000 e na de Marta Suplicy, esta ao menos vitoriosa em São Paulo, e hoje predomina na média pobre e a miserável, entre a qual o ''lúmpen'' que Marx abominava pelo nível de inconsciência.
Essa mudança substancial de perfil do eleitorado esteve presente na maioria das regiões metropolitanas. Assim mesmo na Região Metropolitana de São Paulo, o PT fez a maioria esmagadora dos votos e das prefeituras, ainda que todo o mundo prefira saber do impacto da derrota na Capital. Há muita precipitação nas análises feitas e a celebração da derrota de Requião e Lula no Paraná é feita como se alguns dos supostos beneficiários do processo fossem os únicos e verdadeiros autores do massacre. Basta ver o entusiasmo de Alvaro Dias que não consegue ocultar o sentimento de rancor que o domina, ainda inconformado com a derrota que o atual governador lhe impôs sem falar nas traições recíprocas de um contra o outro.
ÍNDICES E REALIDADE A classe média intelectualizada está melhor aparelhada para perceber que os índices econômicos que beneficiam o governo Lula não chegaram nas pessoas e se perdem num significado macroeconômico e que não alcança as casas das famílias, como mais tarde a Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar, PNAD do IBGE o demonstrará.
Há um equívoco, no caso específico de Curitiba, relativamente ao discurso da pobreza, velha compulsão do populismo, incapaz de transformar o conceito em ação. Ela está manifesta num fato bem elementar: a oposição com esse timbre e que chegou a prefeitura ''quebrou a cara'' nas três vezes, primeiro com o general Iberê de Mattos que sucedeu o major Ney Braga e nos tempos recentes nas experiências limitadíssimas das gestões de Maurício Fruet e Requião.
AS PEGADAS Eles deixaram muito pouco dessa passagem na vida curitibana: Ney restabeleceu a mística do Plano Diretor de Agache, implantou o sistema de transporte, saneou os rios; Ivo Arzua tocou a urbanização no plano da Serete de Wilhelm e fez, sem alarde, mais participativismo do que o do discurso do PMDB e do PT e mudou a fisionomia da cidade com o alargamento da Marechal Floriano, as Avenidas Kennedy e Paraná, a consolidação de organismos como IPPUC e URBS e depois tivemos as gestões seguras de Omar Sabag, as inventivas de Lerner e Greca e a dinâmica e séria de Saul Raiz e, mais recentemente, as duas de Taniguchi. Ora, a despeito dos exageros da manipulação (quase uma lavagem cerebral), o fato é que a cidade funciona e a maioria não está disposta a botar o conquistado em risco. Há uma identificação forte não apenas com esse ciclo histórico, mas também com os antecessores como Erasto Gaertner, Ângelo Lopes e também a do engenheiro Rosalvo de Mello Leitão que trouxe o Agache até nós, ainda no ciclo do Interventor Manoel Ribas.
RESISTÊNCIA AO RISCO De repente, dá para descobrir uma unidade nesse acervo e que para derrubá-la só um esforço hercúleo como o que José Richa desenvolveu para derrotar Lerner, carregando Requião às costas em 1985. E ali havia um condimento do divisor militar, falso, mas operante em termos psicossociais, pois Richa nunca foi molestado pelos milicos e quando estava na prefeitura em Londrina teve todo o apoio deles e, especialmente, do ''neysmo''.
A facilidade gaiata com que alguns observadores chamam de ''conservadores'' os que ganharam as eleições em oposição aos supostos ''progressistas'' é falsa como se invadir terras fosse o fino da bossa e ter um agronegócio que supera americanos e europeus atraso e reacionarismo. É a subversão do raciocínio.

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