Hora de endurecer

Se Beto Richa pretende fazer da austeridade o seu estilo de governar, a hora de fazê-lo é agora no espaço que vai da transição à posse. Tem razão quando pede ao prefeito Cassio Taniguchi que transfira a data da licitação do lixo, um negócio de muitos milhões. Quando Requião ganhou a eleição, pediu a Lerner que também adiasse procedimentos na Sanepar, o que foi feito sem relutância.
O negócio milionário do Eixo Metropolitano está em andamento. Assim é que devemos raciocinar: cada serviço público é negócio no sentido mais abrangente, filológico-semântico, da palavra. E Beto Richa já prometeu, o que é uma parada complicada, baixar as tarifas de ônibus. Se consegui-lo terá levado, outra vez, a melhor sobre Requião em relação ao pedágio, promessa de dois anos.
Da mesma forma que as forças políticas se arregimentam em torno da eleição, as empresariais e econômicas também o fazem como rotina. Empreiteiras, empresas de comunicação, prestadoras de serviço e consultorias ficam todas de atalaia, é claro que lembrando o peso (normalmente exagerando) de suas participações na campanha à espera óbvia da reciprocidade.
Os governos só têm uma chance de mostrar firmeza e ela se dá nesses momentos. Ao pedir a transferência da licitação do lixo, Beto pratica um ato legítimo de quem não deseja usurpar poderes, mas se esforça, de qualquer forma, para não sofrer lá na frente as consequências de um ato administrativo que abrangerá não apenas seus quatro anos de mandato como mais um do seu sucessor. Pode haver uma nova concepção do sistema que não se limite aos rituais de seleção e deposição hoje adotados, ainda mais pelo fato de o aterro da Cachimba estar, de há muito, esgotado. Há aí um outro fator que diz respeito ao caráter metropolitano do serviço e que deve ser levado em conta.
A questão da tarifa dos ônibus, sempre olhada por uma via demagógica pelos políticos (alguns candidatos prometiam passes gratuitos para milhares de usuários como se o sistema pudesse suportá-lo), deveria se fundar em dados econométricos e atuariais inquestionáveis, mas sempre pairou suspeitas pela circunstância que durante muito tempo o cartel dos coletivos ter mantido um nível de convivência com os políticos e a maioria da Câmara Municipal. Essa relação é caracteristicamente pactual ao longo do tempo, e a tal da planilha de custos sempre foi alvo de intensas críticas, as maiores partidas de Requião antes, durante e depois do seu mandato de prefeito. Mesmo quando no governo, o primeiro, Requião permitiu que imagens de romarias ao sindicato dos transportes de políticos e empresários fosse explorada pela TV Educativa que acabou sendo processada e condenada pelos abusos. O título da matéria era ''Ligações Perigosas'', nome do romance homônimo de Choderlos de Laclos. Se as ligações são ou não perigosas não se sabe. Apenas, sabe-se, que há ligações. E essas, ao que parece, inevitáveis. O problema nos governos, de um modo geral, é evitar ligações e que começam na figura dos adversários e amigos destes da mais recente campanha eleitoral.
Ao propor-se a falar com Roberto Requião, assumindo a primazia da iniciativa, Beto Richa se mostra capaz de fazer a engenharia difícil do consenso.
SERCOMTEL Coisas rocambolescas acontecem com a Sercomtel de Londrina. Nedson Micheleti, prefeito, tentou privatizar a empresa e não o conseguiu por causa da resistência de estatistas do PT. Até hoje não se deu pleno esclarecimento daquela história mal contada da venda de suas ações, em 45%, para a Copel e isso em meio a toda movimentação que marcou o agitado fim do terceiro mandato de Belinati. O que foi feito com aquela ''grana'' toda, ela estaria em meio aos tantos desvios prefeiturais e que levaram a sociedade, mais do que as instituições, a derrubar o prefeito?

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