LUIZ GERALDO MAZZA
Brasil sob tutela
Essa discussão interna, ainda que levada ao público, entre o Banco Central e a Petrobras, a despeito das posições doutrinárias firmadas, é a continuidade do que se dava no governo FHC, cuja equipe era bem melhor do que a do Lula.
Por exemplo: o ex-militante da Ação Popular, Sergio Motta, era o ''trator'', como ele próprio se chamava, do pragmatismo da privataria e que teve seus pontos agudos nas teles e também no caso da Vale do Rio Doce. Já o José Serra sempre foi a expressão dissidente dos excessos do governo nessa direção e na sua política econômica, fortemente caracterizada por Pedro Malan, da Fazenda.
Os talentos eram melhores do que os atuais, mas o conteúdo do conflito muito parecido. A retomada do crescimento era a bandeira de Serra, como é hoje dos que se postam contra a ortodoxia do governo em relação ao FMI, Banco Mundial e o Consenso de Washington.
Outra curiosidade: todos esses personagens são do que se costuma chamar, com os riscos conceituais, de esquerda à brasileira. Como a prática tanto de FHC como a de Lula relativamente a esse ponto nodal da crise brasileira mais se parece com valores da direita, percebe-se o seguinte: país que tem a dívida externa impagável, como já a caracterizava o liberal Galbraith, está numa armadilha em que se situa na condição de tutelado e fica ridículo em tal cenário falar-se em soberania. Não existia soberania em Estado sob tutela ou curatela. É algo maior do que a ''capitis diminutio maxima'' dos romanos que excluía os direitos de liberdade e cidadania.
Os tribunais estão decidindo, e com a clara indução do Executivo, em favor de supressão de direitos adquiridos por imposição externa, como se vê em questões como a do pagamento da Previdência pelos aposentados e em tantos outros casos paradigmáticos. Se há riqueza, como se dava também com FHC, nesse debate interno, percebe-se também a sua trágica inocuidade porque os setores que defendem a nova postura não têm qualquer compromisso com a realidade, já que são escassas as possibilidades de o País obter algum avanço em suas relações com esse triunvirato e mais os credores isoladamente. Como também perdem sentido as concessões feitas a países subdesenvolvidos perdoando-lhes dívidas, como se deu com a Bolívia e incursões como as feitas no Haiti e Venezuela, embora nessa haja um sinal expressivo de independência.
O Brasil está amarrado, engessado, e suas iniciativas externas, também como continuidade da tradição de nossa diplomacia, embora válidas e afirmativas, não alteram a condicionante da extrema dependência. Nosso governo hoje mais parece um capataz desses interesses e essa realidade é que não encontra nos atos de resistência da Petrobras, BNDES, etc, um contraponto eficaz em nossa situação de refém e de cativo que dissimula estar livre. Fica ridículo, por exemplo, imaginar qual dos candidatos à presidência dos ''Esteites'' seria mais conveniente ao Brasil.
Impossível esperar um gesto de ruptura que, aliás, estava na origem das expectativas de todos relativamente a Lula e que levou o Custo Brasil ao espaço e obrigou o governo a afundar no pragmatismo à falta de outra saída.
AINDA O CLINCH Se Beto Richa perder a eleição em Curitiba deverá saber que isso aconteceu por não ter respondido nenhuma das acusações, denúncias e provocações do adversário. Apesar do movimento que foi feito para clarear o caso Yamada, as respostas sempre demoraram e isso quando ocorreram. Boxeur que ganha uma luta por pontos não pode, nos rounds finais, permanecer em ''clinch'' pela circunstância de que a recusa à luta, por mais maliciosa, vai concedendo pontos ao adversário. O governo recuperou posições na ofensiva e subestimá-lo foi um erro. Ficará evidente que a gordura acumulada não era tanta.





