LUIZ GERALDO MAZZA
Complexo de autarquia
Essa punição sofrida pelo Atlético Paranaense no campeonato nacional de perda de mando de dois jogos exibe, novamente e de forma pedagógica, uma deficiência de nossa terra, de nossas instituições e de nossa gente: nosso condicionamento ao espírito de autarquia. Falamos demais para dentro como se vê não apenas nesse episódio esportivo (o tom passional, próximo de uma visão conspiratória, a manifestação de repúdio do legislativo a Milton Neves) como nas ações e factóides do governador com a ruptura de contratos e gerando dificuldades ao poder central quanto ao ''Risco Brasil''.
Não somos levados muito a sério, a despeito do peso de nossa economia, tanto a do agronegócio como a da industrialização de vanguarda, e a deficiência é de ordem política: absoluta falta de credibilidade dos nossos líderes, se é que, de fato, existem, sejam os partidários ou os empresariais. Foi, mais uma vez, puro desperdício de energia, a especulação de que o incidente na Arena seria uma conspiração para ajudar o Santos (por sinal que teve também a perda de mando de dois jogos), isso falar nas alegações de ''paranismo''. Nesse particular lembro no governo Richa do retorno de um megaempresário da terra para Curitiba, trazendo a sede do Rio para a Capital, que ele, debochado, justificava interessado na pregação ''paranista'' da gestão estadual.
O paranismo é a forma, mormente na sociedade globalizada e competitiva, mais acabada de autarquia. Claro que falar para o público interno, seja no futebol ou na política, é importante, desde que o tom não transborde. Aliás a linha de argumentação do Atlético, ontem exposta na Folha, pode emplacar e até resolver a parada ou, na pior das hipóteses, reduzir a punição.
O futebol é também uma área de afirmação: o Atlético lidera o brasileiro, já foi campeão em 2001 como o coxa em 1985. O Londrina foi campeão da Taça de Prata e quarto no nacional, o Coritiba ganhou o Torneio do Povo em 1972 e o Grêmio de Maringá pegou o título do torneio Norte-Nordeste-Centro-Sul abatendo o Sport de Recife, lá e aqui, por três a zero. O vetor esportivo tem forte influência não apenas na auto-estima interna, como se viu ainda agora nas Olimpíadas. Essas contribuições são importantes para a nossa ''identidade'', outra carência na medida em que não exploramos a nossa diversidade.
A afirmação das nossas virtualidades tem que superar a autarquia, embora nela se nutra para decantar o pluralismo como o que temos de mais singular.
BIZARRICE O padre Roque não gostou de haverem se referido à Febem no programa do ''Fantástico'' sobre a Bolsa-Família como se fosse o Educandário São Francisco. Ora o massacre de lá e outras instituições congêneres revela que eufemismos não mutilam a verdade da mesma forma que o hábito não faz o monge.
AXIOMA Leopoldo Campos (PSDC) deu apoio a Vanhoni e foi expulso do partido por haver cometido falta grave sem consulta aos correligionários. Pode ser que o Leopoldo, pela exposição na mídia, seja mais importante que a sigla, da mesma forma que Requião é mais forte do que o partido no Paraná. O que para a democracia pode ser um desastre dos mais graves, mas é a nossa realidade.
GLOSA Uma amostra de afirmação do Paraná no mundo globalizado é a revista de cultura Etcetera do jornalista Fábio Campana. Não é provinciana, como revela a sua edição número quatro, ao contrário até cosmopolita com raízes fortes no sentimento latinoamericano e projetando figuras de talento da terra, sem qualquer tipo de proteção.
FOLCLORE Num comício em Uberlândia o candidato Newton Cardoso se disse alguém que fedia, um outro que cheirava e um terceiro que nem fedia e nem cheirava.





