Pieguice e ideologia


O lado mais melancólico da campanha eleitoral, a despeito de sua importância como fonte de julgamento dos três níveis de governo, é o abuso do populismo, do melodrama, da pieguice. Essa concessão rouba espaço para a reflexão tanto de problemas locais como os mais abrangentes.
A despeito de fortemente desmascarado na Rede Globo pelas denúncias de manipulação e desvios de verbas sociais, o que evidencia a adesão do governo ao pior dos clientelismos, que o PT dizia abominar no passado, temos uma orquestração para que o povo se deseduque e perca as últimas referências de auto-estima. Não bastasse tudo isso e os casos flagrados de venda massiva de votos, como o de Rio Branco do Sul, que deveria transformar-se em paradigma na revisão de todo processo, o tom, de um modo geral, tanto de Curitiba como das principais cidades paranaenses, é desolador.
Qualquer noção de idealismo, antes encontrada nos pleitos até por influência direta da Guerra Fria que nos lançava numa armadilha ideológica dual e, por isso mesmo, maniqueísta, desapareceu do pleito, ainda que eventualmente vigore nas pequenas cidades e em núcleos muito específicos das grandes cidades em torno de figuras populares. Casos do gari de Ibiporã, da Teresa da Latinha de Campo Largo e Dona Lourdes de Santa Quitéria, eleitos vereadores por aguda empatia pela atuação que desenvolvem na comunidade, são exemplos isolados de uma identificação de heróis do cotidiano.
As eleições da principais cidades do Paraná, em segundo turno, deveriam ser uma oportunidade excepcional de educação do eleitor, mas isso não ocorre porque partidos e candidatos preferem o varejo das ciladas, o ''glamour'' das novelinhas e esquetes prenhes de sentimentalismo barato e a troca eventual de ofensas. Ficaram devendo no primeiro turno e pelo jeito o saldo continuará negativo. Até lá haja pieguice e melodrama, algo no nível dos filmes da fase mais melosa da Pelmex ou das novelas que os substituem com maior frequência.

INTIMIDAÇÃO Cada vez que o governador Roberto Requião perde causa judicial, ainda que em trâmite inicial, costuma usar de recursos intimidativos para inibir magistrados e promotores. Quando um membro do Ministério Público em Ponta Grossa, Fuad Faraj, se insurgiu contra o fechamento do curso de medicina na Universidade, o governo provocou a manifestação da Corregedoria da instituição. E agora, como um juiz aplicou multa na autoridade e na emissora oficial por quebra de respeito à legislação eleitoral, novamente se dirigiu ao órgão fiscalizador e punitivo do Judiciário pedindo intervenção. Em pleito anterior, um magistrado, Sérgio Arenhardt, que se considerou ofendido pelo governador, entrou com uma ação indenizatória com a qual teve ganho de causa, embora permanecendo em discussão o respectivo montante.
No primeiro governo Requião as relações com o Judiciário chegaram a um ponto de exaustão e os magistrados, errada e precipitadamente, fizeram uma greve, o que é o absurdo máximo, e ainda por cima tentaram o ''impeachment'' com o que se deram mal, já que o Legislativo o rejeitou. Na gestão atual as relações entre Executivo e Judiciário são harmônicas, mas ficam sob risco se houver nova linha de conflitos com juízes de primeira instância.

BIZARRICE Legenda para a foto de Lula de olho no microscópio do Lacen: o presidente procurando ver o salário mínimo.

AXIOMA Certos líderes políticos costumam, à maneira da CNBB, dizer que fazem a ''opção pelos pobres''. E isso muitas vezes é verdadeiro, pois em suas equipes há precisamente um verdadeiro escrete de ''pobres de espírito''.

CROMO Em minha memória, à distância, você é evanescente como perfume.

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