LUIZ GERALDO MAZZA
Definições e indefinições
Se não dá para saber se eleitores como Lula e Requião transferem votos, pois os resultados do pleito não os credenciam numa análise rigorosa, mais difícil ainda é saber se Luis Carlos Hauly carreia votos para Micheleti em Londrina ou se Mauro Moraes, com toda essa moral no plural, drena seu potencial para Vanhoni na Capital. Por isso mesmo, agiu bem Rubens Bueno em manter-se neutro: seu patrimônio de votos é difuso, circunstancial, volátil porque significou em maioria o alternativo como forma de fugir à polarização forçada.
O PPS tem um projeto imediato, o de salvar-se da ''lei de barreira'' que virá em 2006, razão pela qual a colheita de votos, obtida em nível nacional, tem que ser olhada como elemento de aglutinação e consolidação para daqui a dois anos. Como o ex-PCB, obviamente pasteurizado e modernizado, já com sócios do Graciosa Country entre os seus eleitores e incapazes de olhar o campo de golfe sem a vontade de experimentar ali a reforma agrária ou de abrir as piscinas para a pobreza, tem um projeto de poder é preciso pensar antes em sobreviver. Se Rubens Bueno faz opção por um dos candidatos, seu partido corre o risco de acabar na UTI e sujeito a buscar plasma e sangue dos dois que o derrotaram.
Se nem os eleitores como Lula, Requião e Taniguchi transferem votos, como o atual governador demonstrou ao longo de sua trepidante carreira, não há como imaginar que gente com menor densidade o consiga. O lançamento da posição de Mauro Moraes num dos hotéis mais requintados de Curitiba detona a imagem do homem simples identificado com os bairros. Como o PT anda a renegar os seus símbolos como a cor e a estrela dá para concluir que um eventual ajuste ao cenário de um hotel cinco estrelas não signifique traição à causa. Afinal depois do superavião do presidente (quando o PT do passado, o pobre, anatematizava o sucatão de FHC) dá para concluir que a filosofia de Joãozinho Trinta está mais presente do que a de Marilena Chauí e de Francisco de Oliveira na vida real do partido no poder.
IDENTIDADE Até hoje um dos mais estranhos discursos de campanha eleitoral foi o de Eduardo Requião no pleito de 2000. Ele dizia, com a face em primeiríssimo plano, para dar mais força de convencimento, com as suas habilidades de psicanalista, e com uma convicção próxima da religiosidade e da catarse: ''eu sou você!'' Muita gente se convenceu que era ele, o hoje gestor do Porto, como se magnetizado por mediunidade.
Pois agora o Ângelo Vanhoni, para elevar o moral da tropa, está dizendo que ganhou o primeiro turno porque o povo teria votado na mudança (ele inclui todos, menos o Beto Richa e o Bertoldi e que juntos fariam mais de 50% do eleitorado). Já na outra eleição ele não usava a palavra ''derrota'' e sim a ''não vitória''. Algo como a ''nôa'' dos polinésicos e que tinha o sentido de neutralizar a magia das palavras tabu. Como nós, aqui no Brasil, para não dizer demônio falamos em ''coisa ruim'' e tinhoso ou para evitar o contágio de doenças não damos o nome do câncer e da tuberculose preferindo a expressão ''mal incurável'' ou ''insidiosa patologia''. É bom que se esclareça isso para ver que há alguma densidade antropológica no uso da expressão e não se trata de algo gratuito ou primário. Eleição também é cultura, uma enciclopédia.
COMEÇOU ''Baixaria'' como a sarna se enuncia com o ''coçar''. E tivemos ontem no primeiro dia do horário gratuito a sacanagem nada sutil de que Vanhoni é igual ao Rubens Bueno e sugerindo, obliquamente, uma aproximação que não existe. Em termos de criatividade, postar-se o Vanhoni como ''cover'' do Rubens Bueno é bem pior do que aquela do Eduardo Requião convencendo o eleitor no dito ''eu sou você'' de uma identificação mediúnica sem que isso implicasse em concluir, como silogismo, que ''você é eu'', o anverso da possessão.
AFORÍSTICO ''Omnes definitio periculosa est''. Toda definição é perigosa.





