A chuva e a folga


Como a campanha eleitoral em Curitiba não conseguiu vencer a apatia do eleitor e também não temos pesquisas, a especulação em torno dos seus mais prováveis desdobramentos passa por algumas cogitações estranhas que vão de quem é mais beneficiado ou prejudicado pelo ''feriadão'' e também o possível papel das chuvas no entrevero.
Em São Paulo tanto Marta, a prefeita, como o governador paulista, levam isso a sério ao ponto de escalonarem os dias de folga na perspectiva de sua visão eleitoral. Se o calendário é algo tão manipulável quanto pesquisas de opinião já não se pode dizer o mesmo do tempo. Aliás conforme a chuva o eleitor só comparece, em São Paulo, se sair de casa de aqualung. No passado, quando o Brasil rural se sobrepunha ao urbano, o peso da intempérie era decisivo, embora quando a vontade de votar é grande dá para lembrar os deslocamentos de juntas eleitorais no Afeganistão em lombo de burro.

REPERTÓRIOS ESGOTADOS A impressão que se tem é a de que, no caso curitibano, partidos e candidatos teriam esgotado seus repertórios, conquanto tenham dado, no primeiro turno, uma visão penosa em sentido contrário como se tudo estivesse por acontecer. Cabe aí novamente a observação de Rafael Greca de que os candidatos, de um modo geral, pleitearam menos do que a cidade já oferece.
Ontem ainda houve algum movimento decorrente da espera hitchcokiana das posições que Rubens Bueno e Mauro Moraes tomariam, com esse sendo duramente contestado por vereadores eleitos que optariam por Beto Richa. Na verdade, é temerário acreditar que tanto um quanto outro possam mexer na decisão do eleitor, mesmo que se admita o valor relativo, inegável, desse apoio. Até nisso se percebe o tédio que está a aureolar a campanha na Capital.
Não menos complexa a situação nas demais cidades de porte, Londrina entre elas, relativamente ao segundo turno. Uma distância como a aberta entre Belinati e Micheleti pode provocar duas coisas: ou o afrouxamento nas linhas da situação (aí federal, estadual e municipal) ou a motivação férrea para o esforço final de reversão. Há ainda a reação, nem sempre racional, dos que não admitem Belinati de volta e que, se não a dosarem, caem no obscurantismo, aquele mesmo que era praticado pela UDN quando perdia para o PSD-PTB exigindo o golpe e a intervenção militar.

OBSCURANTISMO À VISTA Embora verdadeiro o fato de que as urnas não depuram os pecados, elas tanto podem ratificar a cassação como, cedendo ao vitimalismo, perdoar o ex-prefeito. Na eleição passada, Micheleti superou todas as adversidades e deu um salto de recuperação quanto aos índices de credibilidade. De uma coisa os que nele votam, até por achá-lo o ''menos ruim'', devem ficar certos: até aqui a histeria anti-Belinati não o favoreceu. Caso contrário estaria disparado na frente das intenções de votos.
Nesse segundo turno o governo local parece ligado ao estadual e também ao federal. Apesar do clima, que acho artificioso da tal melhora nos indicadores da economia, fortemente badalados, o governo Lula também é julgado por mais que se esforcem os políticos para desfederalizar o pleito. Quando não é a União outros entes passam para a linha de julgamento: o local e o estadual. E aí a birra pode ser ainda maior.
No caso de Curitiba até que ponto é correta a ''cola'' do PT-PMDB que estabelece linha de entendimento entre Beto Richa e Taniguchi? Tanto o prefeito, que tinha um péssimo candidato, a despeito da qualidade do ''marketing'', como o governador gozam de equivalentes índices de aprovação, superiores aos de Lula. Parece chover no molhado.
Conclusão: chuva e feriadão não superam a consciência do eleitor.

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