LUIZ GERALDO MAZZA
O bom debate
No mesmo dia em que a Rede Globo apresentou os debates em mais de 80 cidades sobre as eleições municipais brasileiras, a tevê a cabo mostrou, em detalhes, o pega entre Kerry e Bush. Não deixa de haver simetria entre uma coisa e outra porque o tema da disputa verbal nos Esteites é quase municipal, por referir-se a um dos quintais da potência hegemônica, no caso o Iraque.
Da mesma forma que o PT contava no Brasil com uma blindagem moral (hoje não conta mais) que o imunizava contra as distorções éticas, nos Esteites uma dessas salvaguardas é o patriotismo nacionaleiro e que habituou o seu povo a entender as ações extraterritoriais como absolutamente necessárias, mesmo depois dos insucessos como os do Vietnã. O sacrifício dos milhares de jovens, aos poucos, foi levando o país a viver movimentos de massa contra um tipo de guerra suja no sudeste asiático e que jamais teria uma vitória apenas no campo militar. O que pode repetir-se agora quando as ações de terror e sabotagem impedem a reconstrução da infra-estrutura e que pelo jeito não fica pronta antes das eleições gerais anunciadas para 2005.
Com todo esse resguardo, o debate foi vencido por Kerry, democrata, que fez um hábil cerco em torno das mentiras e farsas que levaram o país à desastrada aventura no Iraque e que dificilmente será resolvida com a idéia de que o que se faz ali é para deter o terrorismo e defender a liberdade, numa repetição quase enfadonha dos clichês da Guerra Fria em favor da civilização cristã e ocidental. Mesmo o ataque às torres geminadas, que ajudou a despertar, como sempre, o sentido da pátria e da nacionalidade, por tudo que representou, já não convence tão facilmente a sociedade. O debate pode ter conferido alguns pontos em favor de Kerry não o suficiente, no entanto, para sobrepujar Bush.
Nos debates brasileiros o foco não saiu da cidade, o que impediu o temor de que a eleição se federalizasse, mas o da Capital estava uma chatice piramidal.
Rima e é verdade, embora não seja uma solução, como advertia o poeta.
BIZARRICE - Um candidato a vereador do PT falou em cobras e lagartos e bastou isso para que a militância começasse a pintar lingüinhas vermelhas nos adversários. Para uns é menos gravame do que botar chifre e mais hostil do que desenhar bigodinhos. Qual dos candidatos tem mais jeito de chupa cabras é o que muitos perguntam.
AXIOMA - É isso aí: eleição municipal norte-americana é mesmo no Iraque, tal qual se viu no debate entre Kerry e Bush.
GLOSA - A propósito para o Brasil a vitória de Kerry é desejada por uma via ideológica, mas em termos concretos, de mercado, é pior. Haveria por certo, como é típico dos democratas, maior protecionismo interno, o que agravaria a dificuldade de exportação de produtos brasileiros mais competitivos.
EPIGRAMA - O fato de termos o maior número de observadores internacionais não impedirá, no segundo turno, o exercício da fraude e da baixaria.
FOLCLORE - Um caso como esse da Baronesa do Sexo levaria o jornal Última Hora a descobrir a lista de freqüentadores da chácara da suposta cafetina e a publicá-la sem o menor constrangimento. Um escândalo de menores nos anos 50 acabou envolvendo o prefeito da cidade, deputados, figurões e as listas de nomes saíam com a maior naturalidade, o que não ocorreria hoje. Uma técnica dos advogados era levar as depoentes a citar nomes, a três por dois, e isso acabou saturando o meio de campo, embora provocasse desquites a bangu. Nesse tempo Curitiba descobria a droga e o fato das meninas da classe média, o que era um estupor, transarem.
CROMO - Ipês dos roxos aos amarelos se foram; vieram as flores do jacarandá mimoso e o seu silente mistério permanece. Estou no jardim do espanto.





