Ceticismo geral


Qualquer curitibano que tenha andado de táxi ou de ônibus ontem pôde perceber que, de um modo geral, os resultados do Ibope para a prefeitura não foram aceitos pela população. Esse juízo pode ser empírico, mas revela que esse tipo de descrença atinge não só os partidos e os candidatos como também institutos de pesquisa, peça importante no contexto democrático.
Um dos candidatos, apresentados fora de competição, Osmar Bertoldi, alegou que as pesquisas internas da organização fornecem outros números com ele em terceiro e na ''cola'' do Vanhoni que estaria, vários corpos atrás, do Beto Richa. Ora é sabido que o ''racha'' entre o PFL e o PSDB não é um exercício de emulação e, se ele afirma isso, é praticamente para colocar que a polarização seria entre os dois ex-aliados. Que pode haver malícia nem se discute. Todavia esse é um insumo indispensável numa eleição.
O fato é que a maioria das pessoas, nem as da coligação PT-PMDB, acredita nesse flagrante, já desfigurado antes da revelação do filme em laboratório pela reação do próprio Judiciário de primeiro grau que pretendia algo absurdo como o acompanhamento dos pesquisadores por servidores eleitorais. A essa altura muitos acabam concordando com o juiz por força da perda de credibilidade do Ibope desde aquela manobra, acusada por Gustavo Fruet, e que acabou levando o PMDB à aliança com o PT com os números adiposos da rejeição.
Não são apenas os números do Ibope que perturbam. As decisões do Judiciário, em matérias seríssimas, como a da permissão a CPIs estaduais para que quebrem o sigilo, a três por dois, dos indiciados, por 6 a 5, dá bem a idéia da crise de segurança jurídica que estamos vivendo. A ela se junta também a do TSE por quatro a três no caso do Antonio Belinati. É a Justiça operando como no futebol nas decisões por penalidades máximas, gol de ouro ou morte súbita. Ou estamos num momento tenso e de sintonia fina ou de abertura para a anomia e a ausência de referenciais institucionais sobre o que se pode ou não se pode fazer. Abre-se o caminho para o vale tudo como também para todas as restrições.

BIZARRICE Na capa do semanário ''Hora H'' outra montagem do Simon Taylor com Lerner e Taniguchi carregando nos braços o ''filho'' político, o bebê Beto Richa na maternidade com Alvaro Dias aparecendo como parteiro e na parede um retrato de Medici. O título ''Requião descobre O DNA DE BETO RICHA''. Hilário e sacana, todavia com uma criatividade inexistente no arsenal marqueteiro da campanha. Um detalhe: Requião teria alguma ''cria'' política, já que jamais elegeu alguém que tenha indicado? Não há herdeiros imagináveis no horizonte. Talvez Doático Santos, Romanelli ou Nizan Pereira.

AXIOMA A decisão do TSE, embora apertada, confere a Belinati, outra vez, a condição do martírio que pode potencializar seus votos e no primeiro turno. Uma das limitações do brasileiro é o vitimalismo, embora, às vezes, o povo reaja certo como quando detonou, de vez, o retorno de Fernando Collor.

GLOSA Nesta ''Folha'', anos setenta, fiz matéria sobre audiência de rádio intitulada ''É mais fácil ser procurado pelo Bob Hope do que pelo Ibope''.

FOLCLORE Se o marketing do Beto Richa continuar no mesmo diapasão há uma terrível sensação de modorra e preguiça, viscosa como água viva acaba virando o jogo ao contrário. Do outro lado há pelo menos reação, seja a de Requião assumindo o comando, pressionando comissionados do governo, indo às passeatas, mesmo que frustradas, de rua. Há vida ao menos oposta ao tédio e ao ócio.
CROMO Para os meus ais murmurados, ainda o peso do silêncio e da indiferença.

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