O desmantelo azul

Para que não digam que só esparzi bilis, antes a minha radical má vontade com a fuga da inteligência e da inspiração na campanha municipal de Curitiba, vou me valer das sugestões cromáticas (que semiólogo a teria inventado?) da campanha de Vanhoni em trocar o vermelho da revolução pelo azul da calma para rememorar um dos maiores momentos da poética brasileira. Se Rimbaux foi um dos poetas que mais se apegou ao cromatismo, no Brasil poucos chegaram perto do pernambucano Carlos Pena Filho, em quem Manuel Bandeira via um gênio com a ''obsessão do azul''. E o maior porre de azul está no ''Soneto do Desmantelo Azul'', uma orgia em cima da cor eleita.
Vamos à poesia: ''Então, pintei de azul os meus sapatos// por não poder de azul pintar as ruas,// depois, vesti meus gestos insensatos// e colori as minhas mãos e as tuas.// Para extinguir em nós o azul ausente// e aprisionar no azul as coisas gratas,// enfim, nós derramamos simplesmente// azul sobre os vestidos e as gravatas.// E afogados em nós, nem nos lembramos// que no excesso que havia em nosso espaço// pudesse haver de azul também cansaço.// E perdidos de azul nos contemplamos// e vimos que entre nós nascia um sul// vertiginosamente azul. Azul.//''
Talvez soe herético para os estetas ligar a inspiração do poeta ao artifício do mimetismo encabulado de fugir do rubro da revolução que não impede, de qualquer forma, expor o rubor do envergonhado. Espero que a leitura da poesia seja uma espécie de penitência, como a aplicada nos colégios religiosos que nos obrigavam à depuração dos pecados, por tantos e intermináveis Padre Nosso, Ave Maria e Salve Rainha. Imaginaram que beleza e que emoção os petistas, à maneira dos jograis, lendo até a decoração do texto, essa explosão de azul?
BIZARRICE - Ainda sobre o ''Vesti Azul'' de Nonato Buzar e Simonal a letra é também pedagógica: ''Estava na tristeza que dava dó// e via vagamente e andava só// Mas eis que de repente me apareceu/ um brotinho lindo que me convenceu// Dizendo que eu devia vestir azul// Que azul é cor do céu e seu olhar também// Então o seu pedido me incentivou// Vesti azul// Minha sorte então mudou// Vesti azul// Minha sorte então mudou//'' O curioso é que a sorte não mudou a vida de Simonal depois desse sucesso e ao contrário ainda teve que suportar o rancor de uma esquerda paranóica, até depois de sua morte, que o acusava, durante anos, de ser alcaguete do regime militar, o que foi finalmente desmoralizado nos tempos atuais.
AXIOMA - ''Tudo azul'' na semântica antiga equivalia a tudo nos conformes.
GLOSA - ''Nel blu di pinto di blu'', no azul pintado de azul, é um refrão do ''Volare'' (voar) interpretada por Domênico Modugno. Aliás ''voar'' é algo também ligado à campanha do PT-PMDB com o uso sistemático do helicóptero.
EPIGRAMA - Azul também é do olho do governador e apropriado aos seus ''jeans''.
FOLCLORE - As cores sempre foram um elemento forte nas campanhas eleitorais e ainda agora se percebe isso. Redundância é um candidato ''laranja'' usar esse tom, o que operaria como metalinguagem, autodefinição. Uma que teve fortíssima repercussão foi a camisa amarela do Nelson Maculan na eleição de 1960 vencida por Ney Braga. Enquanto Maculan se mantinha fiel à chapa com o general Lott, apesar do bloqueio que o milico havia feito à marcha da produção contra o confisco cambial do café e tinha todo o apoio da UDN do norte-paranaense, Ney Braga jogava no ''slogan'' fácil e funcional: ''Quem é Ney é Jânio, quem é Jânio é Ney''. Um grupo de esquerdistas e nacionalistas da equipe de Ney pensou em lançar o comitê das duas espadas, referentes a Lott e Ney, e este puxou a orelha da rapaziada, vetando a audácia. A simetria pegou.

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