Esperança agoniza
O próprio governo federal subestimou a caudal da esperança que aflorou em função da eleição de Lula. No primeiro momento o fator foi usado para sugerir que ela havia espantado, de forma definitiva, o medo. Aquele mesmo que a atriz Regina Duarte havia colocado em debate no final da campanha.
Inebriados pela vitória, não perceberam que ela imporia um cronograma de atendimento mínimo dessas expectativas e que não poderia ser elástico demais. O aumento da taxa de juros, decidido anteontem, embora a sua necessidade imperiosa para evitar a volta do dragão inflacionário, é uma dessas sinalizações que mostram, quase na metade do mandato presidencial, perdas de credibilidade e a esperança passando a ser volátil, como já se revelou em saques idiotas como o do ''Fome Zero''. Na verdade mais ''teaser'' promocional do que um projeto: uma idéia força em busca de viabilização.
As eleições municipais, aqui como na Europa, fazem, julgamentos quase sempre críticos de quem está no poder. É o tipo de pleito em que o eleitor está mais próximo do candidato e, por isso, ele se mostra permeável à emoção, item maior no momento da campanha petista em Curitiba.
Se já era visível que Lula seria menos eleitor do que Roberto Requião e do próprio Cassio Taniguchi, a conjuntura atual aprofundou esse raciocínio e deixou o PT com o risco, se as coisas se tornarem mais dramáticas, de um duro julgamento por destruir a represa em que se acumulara tanta esperança. E isso apesar do apoio indisfarçável da Rede Globo, como é da tradição, em favor de todo esse clima de otimismo, que já desperta, pela insistência, a suspeita de que é manipulado, pois os indicadores triunfalistas não parecem ter alcançado o universo prosaico das pessoas, ainda que fulgurantes na pauta conjuntural.
Essa perda de confiança é de tal ordem que tornam até desnecessárias algumas dessas provocações de partidos de aluguel contra o presidente Lula e o PT. Mas além disso, o ceticismo ganhou tal capilaridade na sociedade brasileira que deve responder por essa apatia, especialmente no caso de Curitiba, que atinge o eleitor e que nem com as baixarias em andamento e as programadas se sente motivado para o pleito. Definha a esperança e isso pode significar um alude de votos em branco e nulos, apesar do tom melodramático e novelesco que a campanha procura, neste momento, traduzir.

BIZARRICE A ALL jamais andará na linha. A agência reguladora também.

AXIOMA Há o temor de que as Parcerias Público Privadas repitam a privataria dos tempos de FHC. E no Brasil isso bem que é possível.

GLOSA Por que se pretendeu tanto a votação do aumento do secretariado? Transferir o ônus para o candidato da bancada oficial porque aparece sua assinatura, como líder do governo, no projeto de Anibelli? É caso de tanta ou maior suspeita do que a produzida pelas pesquisas eleitorais.

EPIGRAMA Antes retardar a pesquisa do que acatar um instituto ''retardado''.

FOLCLORE Uma das cantilenas comuns em campanhas municipais era assistir os candidatos a vereador condenando a locação de veículos pela prefeitura e o legislativo. Só que depois de eleitos todos se abraçavam nos carros locados. A propósito no Diário Oficial do Estado de 21 de julho havia autorização para a Cotrans receber faturas de locação de veículos do exercício de 2002. Também já houve resmungos por causa dessa terceirização. A hipocrisia, como sugere La Rochefoucauld, é a homenagem que o vício presta à virtude.

CROMO Antes a falta de inspiração do que a de fôlego.

mockup