LUIZ GERALDO MAZZA
Comércio e eleições
O TRE derrubou o entendimento da primeira instância que vetara a Boca Maldita para comícios na Capital sob o fundamento de que o som atrapalhava as aulas de uma faculdade localizada no Edifício Garcez. Essa unidade de ensino superior também impediu, na defesa dos seus interesses, que a prefeitura mexesse no sistema de circulação em que está situada.
São dois casos que mostram uma das deformações de Curitiba que, a despeito de toda a fama de modelo urbano, tem subordinado a cidade a interesses comerciais como se deu no funcionamento do Shopping Mueller que burlou a legislação sobre recuo apoiada num simulacro, dos mais absurdos, de uma suposta restauração arquitetônica. É a regra imperial que predomina em Curitiba na proteção exagerada a concessões para shoppings, templos religiosos, estabelecimentos escolares e, até um tempo atrás, facilitando os bingos, onda hoje contida pela cruzada do governador Requião Coração de Leão.
''MODELAR'', UMA OVA Não é possível que se considere modelar uma cidade que incide nessa deformação sistêmica: não poucos hipermercados foram também beneficiados nessa perspectiva, isso sem falar que se valeram de outro instrumental, o do incentivo construtivo com aquisição de áreas em fundos de vale para preservação ou de prédios ''tombados'' por suposto valor artístico ou arqueológico.
Pois agora quem está querendo que a Justiça Eleitoral, como se tivesse uma tal elasticidade capaz de absorver todos os casuísmos, intervenha em seu favor é a corporação empresarial de Santa Felicidade que se vê, aos sábados e também aos domingos, invadida pela parafernália de cabos eleitorais que provocam filas enormes e engarrafamentos no trânsito, prejudicando o movimento dos restaurantes e um melhor atendimento à sua clientela. Se o bairro virou uma atração detém, em função disso, os ônus e bônus: no andamento da campanha a maior parte das reuniões fechadas se dá nos restaurantes gigantes e é claro que sofra também o lado inverso disso que é a mobilização inevitável dos cordões eleitorais nos dias de maior movimento, da mesma forma que essa ''militância'' invadiu as praias nos dois primeiros dias do feriadão.
O ENTENDIMENTO Basta haver entendimento, puramente administrativo, entre a Diretran, Detran e Justiça Eleitoral, para evitar o caos e impedir que haja perda de risoto, polenta e radichi, sem prejudicar o exercício político da cidadania. Santa Felicidade decidiu a primeira eleição de Curitiba autônoma, em 1954, com a pavimentação feita pelo prefeito em exercício, Ernâni Santiago de Oliveira, de graça, para favorecer o candidato do governador Munhoz da Rocha, seu ex-cunhado Ney Braga. O maior prejudicado, Walace de Mello e Silva, pai de Requião, teve aí o fator que deu a diferença que o acabou derrotando.
Agora quem não quer ser derrotado é o complexo de hospitalidade instalado no bairro-colônia, realmente o maior fenômeno de massas, não das populares e convocadas aos comícios, alvo das promessas daqueles que têm soluções para todos os problemas da cidade e dos cidadãos, mas a sua bateria de ravióli, espaguete, talharini, nhoque e polenta. Como naquela marchinha carnavalesca dos anos 40: ''a italiana não tem balagandans// a italiana não tem acarajé// pois é: tem ravióli, tem talharini e tem espaguete// e tem polenta para quem quiser!'' O tabuleiro da italiana é menos decantado do que o da baiana.
HAJA MASSAS A metáfora é adequada: substitui-se a baiana, tão exaltada e justamente na sua identidade, cultural e turística, pela italiana de Santa Felicidade que hoje já não desce de carroção para o centro e no pregão orfeônico: ''Ói a galinha, o pepino, o tomate, o pimenton e a abobrinha!'' Aí estalava o chicote e com a voz tremida pela passagem das rodas nas pedras irregulares o grito épico ao disciplinado condutor da carroça ''Uia, baio!''





