LUIZ GERALDO MAZZA
Militares e seus seguidores da Redentora alegam, com alguma razão, diante do fato de que estão encurralados pelas versões dos derrotados de 64 (na verdade todo o povo o foi, embora a maioria ativa desejasse a intervenção), de que se procura ''reescrever a história''. Com obras como ''Olga'', com versão água com açúcar no padrão global, embora severa no livro de Fernando Morais, ou a série de livros de Elio Gaspari sobre o período militar, tem-se um outro tipo de visão de processo. Diante de Olga aprende-se também a crueldade e a força do nazismo dominante no regime de Getúlio Vargas que favoreceram a entrega da militante comunista à Gestapo e daí à morte no campo de concentração.
Às vezes me aborrece a legião de vítimas e de supostos heróis de 64 porque isso me convence de que éramos extremamente incompetentes (eu também fui alvo do Ato 1, firmado pela CGI estadual e o governador Ney Braga), já que não dá para contestar que formávamos maioria, tantas são as vítimas e heróis, banidos e mártires, superior às forças regulares do regime.
ANALOGIA IMPOSSÍVEL - Não dá para comparar a ferocidade militar brasileira com a dos chilenos (que deram sumiço em 3 mil), argentinos (mais de 30 mil) e uruguaios. É verdade que pegaram adversários bem mais determinados como guerrilheiros, daí porque o martírio também foi mais intenso. O Araguaia, foco do nosso maior extermínio, é pouco, estatisticamente falando, perto dos massacres nos três países. Razão pela qual é possível hoje processar militares na Argentina e derrubar até a anistia concedida ao ditador chileno Pinochet.
Nesta semana tivemos um episódio menor, mas de grande repercussão interna, na comemoração dos 16 anos das bombas contra os professores no Centro Cívico. Até hoje a Polícia Militar não deu uma versão sua, o suficientemente ampla, para tirar a hegemonia da mão única do vitimalismo. Os professores iam invadir o Palácio como o fizeram na Assembléia, aí facilitados pela concessão de Aníbal Khury e do deputado Antonio Anibelli. Uma forma inteligente de descomprimir o estado de ânimos dos mestres que tinham várias baixas por causa dos ferimentos das bombas de efeito moral.
A FUGA DOS ÔNUS - Governantes adoram moleza no empenho em transferir o ônus da violência à polícia e Alvaro Dias quis tirar o corpo da reta, o que evidenciou ao desaprovar os IPMs em que os milicianos só indiciavam civis. Tal qual como se deu quando da tragédia de Campo Bonito, no governo Requião, com três PMs linchados pelo MST com a PM repicando com prisão, execração e morte do líder Teixeirinha. O IPM, a despeito das três mortes, teve o pedido de arquivamento na Auditoria devidamente aprovado.
A Polícia Militar deve ter seu código operacional e deontológico (ético) próprio, inegociável nas relações com o governo, a despeito da obediência devida na hieraquia vertical. Não poucas vezes razões políticas levam a PM a deixar de lado seus códigos para aderir a razões imperiais do governo. No caso das bombas no Centro Cívico a PM agiu rigorosamente dentro dos cânones, já que era iminente a invasão do Palácio.
MASSA DE MANOBRA - Alvaro Dias não quis suportar os ônus da ocorrência e acabou punido pela justiça poética: quanto tentou voltar ao governo os professores foram massa de manobra de sua derrota. Depois, também frustrados com Lerner, não tiveram força na reeleição para derrubá-lo. Agora são beneficiados por Requião, de uma forma absoluta, sem justiça para as demais categorias, com um aumento superior a 30% e um Plano de Cargos e Salários que extrapolou os limites da Lei de Responsabilidade Fiscal, e ainda se acham no direito de mantê-lo sob pressão, valendo-se do ''background'' da celebração dos 16 anos das bombas que os professores não esquecem e os militares, em especial, como se tivessem cometido um crime nefando, se calam.





