LUIZ GERALDO MAZZA
O gás hilariante
Um mestre universitário da área de Odontologia explicava, ontem, na CBN Curitiba, que o uso do gás hilariante, em escala mundial, foi um avanço para o descondicionamento de pacientes atormentados com o medo do dentista. É quase uma tortuosa adequação do ''similia similibus curantur'', fundamento-chave da homeopatia. Só que nesse caso se troca a dor pelo riso. Mais ou menos o que se deu ontem com o primeiro programa eleitoral. Não havia gás, mas era hilário.
A tentativa de reproduzir valores da televisão, em termos de cenário e também de esquete, sem faltar a incidência do melodrama, tão comum nas novelas, foi uma constante que permeou a linha geral das encenações. Ainda bem que à medida que as distorções forem observadas haverá tempo para correção, uma vez que hoje o interesse em torno das Olimpíadas é de tal ordem que deve reduzir, e de forma considerável, os níveis de audiência.
O melhor programa é o do PFL em termos de roteiro, execução e comunicação bem identificada na figura do prefeito Cassio Taniguchi como eleitor-chave e sempre mostrando as respostas que deu aos desafios da cidade. Só que o Osmar Bertoldi não parece à vontade em meio a um ''decor'' tão favorável. Parece estar colocado ali sem muita convicção em visível desconforto. Essa execução de nível superior ao programa pode dar uma densidade ao candidato, em termos eleitorais, até aqui não imaginada e com força para mexer em todo o quadro, desde que não enfatize as tolices piramidais que disse sobre segurança com a interveniência do Rudolph Giuliani. Taniguchi é parceiro mais ''seguro''.
Tanto o programa de Beto Richa quanto o de Vanhoni, principais candidatos nas pesquisas, decepcionaram. Aquele passeio ''espontâneo'' do Ângelo Vanhoni e aquela coincidência do seu encontro com os companheiros de viagem estava de lascar. Como também a do programa do Beto Richa a decalcar aquele quadro de ''confidencialidades'' do programa do Faustão. Um intelectual diria que se é para impressionar por que não o Fausto de Goethe em lugar do Gordo? Vai ser uma Olimpíada suportar o que está por vir em todo o Brasil. Só falta alguém, agora decalcando os programas do Ratinho, sair atrás e exibir o DNA político dos candidatos. Por sinal que o Ratinho está com Rubens Bueno e não abre.
ANALOGIAS - Para encher a bola do Nizan Pereira, candidato a vice do PT-PMDB, andaram lembrando que ele fez o mesmo roteiro do seu colega médico, porém mais guerrilheiro do que clínico, o Ernesto Chê Guevara, pela América Latina. Um direitista também pode ter seguido os passos de Tiradentes ou um materialista o de Jesus sem que isso transfira, a qualquer um deles, alguma aura épica ou mítica. Ficaria melhor para o Nizan repetir o filósofo Albert Camus que disse ter descoberto maior humanidade no relacionamento num time de futebol (ele foi goleiro do Oran, da Argélia) do que em operações da resistência. Nizan deve ter observado isso como bom basqueteiro e companheiro sensível que é. Aliás o Chê é mais ícone (desapegado ao poder e mártir da causa) do que eficiente guerrilheiro, sob o ponto de vista militar. Embora o feito em Cuba, as suas intervenções no Congo e na Bolívia foram negativas.
Mas o Chê é um herói de todos os continentes, tanto por sua busca quanto pelo martírio. O Klaus Barbie, o carniceiro do campo de concentração de Lyon, disse, na Bolívia, onde foi preso, que Guevara não chegaria a sargento do Exército alemão, o que de forma alguma lhe reduz a dimensão de herói e mito.





