LUIZ GERALDO MAZZA
A hora do 'empate'
Nunca ficaram tão visíveis as contradições nacionais, traduzidas num processo de tensão permanente, como nos dias que correm. Infelizmente a cultura política existente, até porque vivemos mais o autoritarismo ao longo da história entremeado por esteadas de liberdade como a que ora desfrutamos, em nada facilita um processo de avanço porque joga no conflito, do qual se busca extrair alguma vantagem.
Não sabemos conviver com os dois pólos do equilíbrio institucional centrados nos princípios da liberdade e autoridade, não necessariamente antinômicos, mas interativos numa tensão dialética. O excesso de liberdade sem essa mediação leva ao liberticídio com o consequente predomínio do autoritarismo.
Já me referi, por mais de uma vez, sobre uma ''instituição'' popular vigente no cenário amazônico da declaração do ''empate'', aí com o mesmo sentido que a palavra tem no caso da linha de pesca até para sustentá-la e mantê-la. Num dos documentários do Globo Rural isso foi exibido: os seringueiros, quando sabem que uma área da floresta está sendo derrubada por peões para a montagem de pastos, vão até o local da agressão ambiental em grupo e declaram o ''empate'', isso é uma espécie de armistício. O ritual lembra autos populares, comuns à teatralização de situações como no Boi de Mamão ou Boi Bumbá. Cessada a derrubada, troca-se a possibilidade do conflito pelo diálogo interminável.
O Brasil, mergulhado na anomia institucional, é permeável demais a esse tipo de situação e se de um lado há necessidade de acabar com a impunidade nada justifica que em nome desse objetivo haja a perda dos parâmetros mínimos e a serviço de uma ansiedade psicossocial que faz dos cidadãos vítimas de clima paranóico em que é visível o espírito de linchamento. Nesse quadro qualquer apelo para a serenidade, como o dos ministros do STF sobre o abuso da CPI do Banestado na concessão coletiva de quebra de sigilo bancário, soa como sinal de comprometimento com o que em nome da limpeza se pretende desprezar regras de Direito. O pior é que os exemplos mais graves vêm do governo cada vez mais empenhado em controlar a sociedade quando deveria servi-la e não subjugá-la.
BIZARRICE - Ao encaminhar ao Legislativo o caso da compra da Elejor pela Copel o governo admitiu uma irregularidade que pretende agora sanar, mas as marcas digitais permaneceram. Isso não impede o Tribunal de Contas de reprovar a operação e apurar responsabilidades.
AXIOMA - Indicador negativo não dá para comemorar: o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de Curitiba nos sete primeiros meses foi o maior do Brasil. Causa: tarifas públicas, duas que Requião deprimiu em 2003 (água e esgoto e energia) e outra que não consegue controlar, apesar da sua luta, a do pedágio.
GLOSA - No ano passado o IPCA da Capital foi o menor do país: o pedágio só veio a estourar agora e as tarifas de luz e água subiram menos. A política não pode ser um exercício permanente de prestidigitação e uma hora o bicho pega.
EPIGRAMA - Será que a jogada da proibição dos radares emplaca eleitoralmente ou acabará em trombada?
FOLCLORE - Curitiba, que tanto se orgulha dos seus modelos, deveria imitar Petrópolis que proibiu propaganda eleitoral nos postes. O sonho do eleitor mais irado é o de pendurar alguns políticos e não propaganda nos postes.
CROMO - Tempo que não volta: aquele de descobrir, ansioso, possíveis sinais de amor numa carta em imponderáveis entrelinhas. Essa ingenuidade é morta.





