O fingimento sistêmico

Ontem o MST, a pretexto de firmar posição contra desocupações programadas de áreas invadidas, ocupou a praça de pedágio da Rodovia das Cataratas, um dia depois de o presidente do Incra haver anunciado recursos para assentamentos no Paraná. Obviamente a manifestação mostra que os sem-terra se escudam na forma dissimulatória como as instituições reagem às suas ações ilegais e violentas. A lentidão habitual para cumprir despejos judiciais é um desses estímulos, outro o discurso ''social'' dos governantes e que se torna mais denso num tempo de eleições e ainda um terceiro no vazio representado pelo não-acatamento dos pedidos de Intervenção Federal, já aprovados, como o mais recente da Fazenda Sete Mil, de Ivaiporã, e cujo ritual parou na presidência da República, o que levou os proprietários ao pedido, inútil, de impeachment de Lula.
Está mais do que demonstrado por estudos do Incra regional de que não existem áreas improdutivas suficientes para atender uma demanda crescente ditada somente pelo cronograma das invasões e tal equação, ainda mais com a crise financeira de Estado, se torna inviável e paroxística. Essa situação deve estar se repetindo em outras unidades e isso demonstra que não há a menor perspectiva de racionalidade, tanto no movimento social quanto no governo.
Em parte essa lentidão, tanto a do cumprimento das decisões judiciais quanto a das ações de governo para atender assentamentos, acaba se transformando num combustível das ações do MST. O curioso é que essa punição do setor produtivo, e que responde pelos feitos nacionais em exportação e na melhora dos indicadores de emprego, se dá também de forma sistêmica. Daí alguns produtores mais exaltados prometerem responder à violência das invasões com a ocupação também das estradas como forma de protesto. Dá para imaginar nas estradas um ''racha'' entre sem-terra e com terra, o Brasil no furor carnavalesco.
Há um aspecto positivo no afloramento, vivo, aberto, das contradições nacionais, mas o árbitro dos conflitos é o governo e a catatonia não é a melhor das posturas diante do espetáculo de desagregação institucional. Achar que as coisas estão sob controle, por causa das afinidades entre Lula e a causa do MST, não é uma forma responsável de encarar o problema como se ele pudesse, dentro em pouco, autometabolizar-se.
BIZARRICE - Uma coisa não se pode dizer de políticos em campanha eleitoral: a de que não dão camisa pra ninguém. É o que mais dão.
AXIOMA - Outro aspecto dignificante da campanha é o seu engajamento no Fome Zero de Lula. Que o diga a rede de restaurantes de Santa Felicidade.
GLOSA - Era tão nacionalista que se o Brasil adotasse a pena de morte optava pela execução na cadeira elétrica por energéticas estatais em mercado cativo.
EPIGRAMA - As pessoas olham com suspeita as pesquisas de opinião, eleitorais ou não, com a máxima desconfiança por uma razão cartesiana: mais de 95% jamais foram ouvidas nessas sondagens.
VINHETA - Nos jogos olímpicos, se houvesse a modalidade de invadir terra o Brasil poderia levar uma medalha. Já em assalto em altura (TRT de São Paulo) e em revezamento na corrupção pegávamos, no mínimo, a de prata.
FOLCLORE - Emílio de Menezes, trocadilhista rápido no gatilho, anda pela Praça Osório e encontra um seguidor do positivismo (Dalton Trevisan diz que há 13 no mundo e 11 em Curitiba) que o saúda e pergunta se vai ao apostolado. O poeta responde de bate-pronto: ''Vou pro lado oposto''.
CROMO - O amor é assim: quando você quer dizer e não consegue.

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