LUIZ GERALDO MAZZA
O Brasil meridional
Nos anos 50 quando houve, por força do governo JK, maior preocupação com os desníveis regionais, o jornalista Franklin de Oliveira, para espanto de muitos, apontou o sul como um ''novo nordeste''. É que aquele tempo já haviam sido criados órgãos como a Sudene, Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, que foi uma das áreas de exercício de Celso Furtado, olhados, ainda recentemente, no final da gestão FHC, como dispensáveis.
À época houve mobilização nos três estados do Sul para criar um organismo com poder de intervenção (não meramente indicativa) nos problemas comuns. E nasceu daí a Superintendência de Desenvolvimento do Extremo Sul, Sudesul, e também o Codesul, Conselho de Desenvolvimento do Extremo Sul, que teve a secretariá-lo o filósofo (o mais importante conhecedor latino de Kierkgard) Ernâni Reichmann. Muitos estudos foram realizados e de toda a contribuição ficaram o Conselho e o BRDE, um banco de fomento voltado para alavancar a região, no qual nem sempre tivemos uma participação à altura da nossa contribuição.
INTERAÇÃO VÁLIDA Com esse encontro das federações das indústrias dos três estados junto com parte ínfima da sua representação parlamentar (a época de eleições atrapalha) a questão é retomada. E como se funda nas deficiências da infra-estrutura foi interessante que tivesse sido precedido por uma avaliação equivalente em evento nacional dos transportadores de cargas em Foz do Iguaçu, ocorrido à semana passada. E que bateu na tecla dessa carência de fundamentos para o deslanche da economia em estradas de rodagem e de ferro, portos, aeroportos etc.
Normalmente há a choradeira de que levamos, no sul, um baile dos nordestinos em razão de sua maior presença política, tal qual se diz aqui no Paraná que os vizinhos catarinenses nos passam a perna. Temos aqui alguém com a expressão nacional do senador Jorge Bornhausen? Parece que a pergunta explica tudo.
TIMIDEZ? Já estivemos melhor quando, por exemplo, os gaúchos contavam com Brizola e o Paraná com Ney Braga. A contundência nacionalista daquele e a habilidade deste nos davam mais expressão do que agora. Gaúchos têm mais tradição e tomaram uma posição de vanguarda na política brasileira. Basta lembrar um exemplo para destacar nosso acanhamento oposto à ousadia gaúcha: o ministro da Educação, Tarso Dutra, de uma só tacada, federalizou todas as universidades estaduais daquele estado, enquanto nós somos um dos poucos que não recebem em seu HC, Hospital de Clínicas, o pagamento dos seus quadros por via ministerial, apesar de termos tido ministros da Educação (Flávio Suplicy de Lacerda, Ney Braga, Euro Brandão) e da Saúde (Aramis Athayde em 1954, Borges da Silveira e Alceni Guerra).
JUSTIÇA Não se trata de restabelecer o arquétipo da timidez e autofagia paranaenses, que mais parece um exercício de sociografia do que assentado em fundamentação científica, mas que se torna pertinente com um quadro de apatia e até mesmo de desídia, de quase deserção da nossa classe política. Ontem foi mais uma boa oportunidade para escapar ao marasmo e citar esses exemplos do passado, quando detínhamos condições melhores de liderança e correlação, tem apenas uma função didático-pedagógica para a cobrança do óbvio, de termos concentração, energia, um pouco mais de audácia.
Ressalte-se que o dado interativo de uma presença mais forte e um discurso mais determinado por parte dos industriais do que dos políticos não espanta. Os políticos dissipam mais a onda de esperança, aflorada com Lula, do que os demais setores da sociedade. A contribuição específica que o sul dá ao país na produção das divisas exige o máximo dessa arregimentação.





